Adailton Medeiros
O ano começou e o movimento de captação para realização e manutenção dos nossos projetos iniciou junto com ele: foi dada a largada para o benefício da Lei de incentivo do Rio de Janeiro, Lei do ISS, uma verdadeira corrida para nós realizadores – concorridíssima, por sinal.
Não é novidade que as ações culturais audiovisuais que visam conhecimento, preservação ambiental, desdobramentos sociais e promoção da cidadania são o foco nos nossos projetos. Até porque caminhamos lado a lado com a Educação e atuamos, muitas das vezes, diretamente com o público escolar, como alfabetizadores do olhar e do comportamento.
Muitos de nós já ouvimos dizer que “quem abre uma escola fecha uma prisão”. A proposta do Ponto Cine é ir além deste conceito concreto, físico, citado primeiramente por Victor Hugo (ou registrado por ele), ampliando-o para o imaginário nas escolas que já existem fisicamente, mas que precisam se abrir a novas experiências. Os nossos projetos propõem “abrir” as escolas com o audiovisual, tornando-as mais agradáveis aos alunos e professores, e mais simpática e atuante à comunidade onde elas estão localizadas.
No dia 17/01/12, no telejornal “Bom Dia Rio”, da TV Globo, assisti a uma reportagem muito boa sobre Educação, com dados interessantes, de onde tirei algumas conclusões que podem, de alguma forma, nos servir de defesa nos nossos projetos – que gostaríamos que fosse de toda a sociedade, porque acreditamos muito neles e no seu poder de transformação.
Bom, a reportagem dizia que o investimento por aluno/ano no Estado do Rio é de R$ 3.500,00, quando o piso exigido pelo Ministério da Educação é de R$ 2.096,00. Isso é um bom sinal, estamos investindo 66,98% a mais e, por isso, na frente de muitos outros Estados da Federação.
Por outro lado, estamos muito longe de alcançar o que se investe num presidiário/ano no Rio de Janeiro, o correspondente a R$ 15.600,00, ou R$ 1.300,00/mês. Numa conta rápida: três meses de investimento em um presidiário no Rio equivale ao investimento de um ano inteiro em um aluno de escola pública e ainda sobram R$ 400,00.
Se levarmos em consideração o valor indicado pelo MEC o absurdo se torna maior ainda: apenas dois meses de um presidiário equivale a um ano inteiro de um aluno e ainda sobram R$ 504,00.
O Brasil investe por ano U$ 1.200 por aluno. Canadá e Finlândia, U$ 7.700. Dando uma ajeitadinha na celebre frase de F. Veiga: “Se a gente acha a educação cara, pior é experimentar a ignorância.” Razão essa de um presidiário aqui custar 644,28% a mais que um aluno/ano, ou cerca de 7,5 vezes do que se aplica em um estudante da Rede Pública de Educação. Investimentos inversos e errados.
Especificamente, hoje estamos trabalhando na captação de três projetos que têm a ver diretamente com a Educação. O Cine Literário, que visa estimular o acesso à leitura através do cinema e promover o acesso ao cinema através da leitura. Ele vai ao encontro do planejamento das políticas públicas para os próximos 10 anos e consiste em duas linhas de ações: 1 – Mostra de Filmes Brasileiros baseados em obras da Literatura Brasileira; e 2 -Distribuição de 100 (cem) Midiotecas a Escolas Públicas.
O outro é o Oficine-se de Paz , de capacitação de produtores, exibidores e empreendedores, através de oficinas audiovisuais, concebido para ser aplicado nas Comunidades ocupadas pelas UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora -, na Cidade do Rio de Janeiro.
E o terceiro é o Rede Limpa de Exibição, de implantação de Núcleos de Exibição de Cinema nas Escolas Públicas do município carioca com novas tecnologias de exibição, alinhadas à preservação do Meio Ambiente, formação de mão-de-obra, capacitação técnica para o setor audiovisual e incentivo ao empreendedorismo.
Num levantamento no site da Secretaria de Estado da Educação, analisando o número total de escolas e alunos por Coordenadoria e Município, vi que a média de alunos/escola é de 875,9. Levando em consideração só o ensino médio e a educação de jovens e adultos, cheguei a uma outra média: 357 alunos/escola.
Se os meus cálculos estiverem corretos, e acredito que sim, o grande argumento “econômico” do projeto Cine Literário, por exemplo, é que o investimento de uma cota (R$ 262.000,00 para vinte escolas), para qualquer patrocinador, corresponde a um aporte de R$ 13.100,00/ano, em cada escola, ou R$ 1.091,67/mês. Ou, mais detalhadamente, R$ 36,69 aluno/ano, 1,05% do que o Estado investe (R$ 3.500,00) ou 1,75% do que o MEC recomenda e que nos torna muito distantes da Finlândia e do Canadá.
Nossa expertise é Arte, Cultura, Educação e, especialmente, gente, o lidar com pessoas. Porém para oferecer a nossa contribuição ao País temos que nos metamorfosear em economistas e nos especializar como agentes financeiros, captadores de recursos, lobistas, enfim, em uma espécie de caras-de-pau sofisticados, camelôs da cultura, para, com uma lábia ensaboada, provar que o projeto é economicamente viável, é barato.
Quanto ao teor, a essência dos projetos, Cultura e Educação, essas ficam em segundo plano; quando deveria ser o contrário. Se a gente continuar achando que educar é caro continuaremos experimentando a ignorância, e amargando o vergonhoso 88º lugar no ranking mundial do ensino, de acordo com o Relatório de Monitoramento Global, preparado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).






