SAMBÓDROMO, DITADURA E SEGREGAÇÃO

PRIMEIRO TRATAMENTO

Por Adailton Medeiros

 

A única coisa que diferencia os Capitães do Mato dos Escravos é o cruel poder concedido a eles pelos Senhores de Engenho, para castigar os seus iguais.

Estamos em pleno século XXI, mais exatamente na metade da sua segunda década, e experimentamos uma profunda mudança de formas, mas em relação aos conteúdos tenho uma percepção de vivermos quase uma estagnação.

Co-existem em nosso tempo o Escravo, o Capitão do Mato e o Senhor de Engenho. O Sambódromo, sob a alegria disfarçada de tantas dores, é a mais evidente síntese disso.

Fui ao desfile das campeãs este ano, onde a grande vencedora, a Beija-Flor, consagrou-se com o patrocínio da opressora Guiné Equatorial. Escolhi o Setor 13, onde me permitia, pela direita, ver a curvatura da belíssima Águia Redentora da Portela ao passar por baixo da torre da imprensa; pela esquerda, o sentimento de dever cumprido dos integrantes das alas na dispersão, seus risos, choros e intermináveis agradecimentos com evoluções especiais para uma platéia fiel de fim de festa; e, ao centro, o povão, os meus iguais.

No centrão, além de invejar um montão de gente que levou sua cerveja de casa aos montes para beber como se o mundo fosse acabar naquele dia, mesmo sem a Padre Miguel estar entre as seis da noite – na mão dos ambulantes a latinha de 350 ml custava a R$ 7,00 e a 473 ml a R$ 10,00, um abuso -, vi uma senhora sacar de um pote plástico um pedaço de broa, que deveria estar maravilhoso. Mais ao lado, um grupo tirava gosto com salgadinhos diversos sem fazer cerimônia.

Todo aquele aperitivo visual provocou os sentidos e nessas horas não há estômago que aguente. A fome bateu. O jeito foi recorrer às empresas alimentícias vencedoras da concorrência para explorar o local. Mas, por incrível que pareça, não havia concorrente, somente uma empresa especializada em fast-food, o Bob’s, operava no local. Fazer o quê. Encarei a fila do caixa durante um tempão e, para surpresa geral, mais surreal que o enredo da Portela foi a resposta da atendente quando pedi um Cheeseburger:

- O Cheeseburger só daqui a uma hora.

- Como assim?

- Desculpe, senhor, mas tem muita gente… eu só sou a caixa, prefiro logo falar pra o senhor não ficar com mais raiva ainda…

- Entendo, tudo bem…

Àquela altura o jeito era atravessar todo o setor, incomodar quem estava acomodado, pedir desculpas pela aporrinhação, sair, comer qualquer coisa mais próxima ao recinto e retornar, até porque era a vez do Salgueiro. Assim o fiz, mas fui barrado na porta de saída, pelo encarregado:

- Amigo, eu quero sair pra comer alguma coisa, porque aqui dentro só daqui a uma hora e meu estômago tá gritando feito uma cuíca, mas vou voltar…

- Não! Se sair, pra entrar de novo, vai ter que pagar outro ingresso!

- Você não entendeu, estou fazendo isso contra a minha vontade, não queria sair, mas não tenho outra opção, a estrutura não me atende…

O rapaz, do alto do seu crachá de 24 cm x 21 cm, incorporado de todo o poder lhe concedido, laçou sobre mim um sádico riso e sentenciou:

- Aqui é pra quem paga o ingresso de R$ 5,00 e pra quem paga só isso é só Bob´s. Quer Mister Pizza, vai pro Setor 1…

O encarregado, no conteúdo, por incrível que pareça, carrega o sentimento do Capitão do Mato. Eu me senti como um escravo impotente e, mais que isso, tive a sensação que o Setor 13 era uma senzala. Aquelas cervejas que aqueles moços trouxeram de suas casas provavelmente era uma violação, àquela broa da senhorinha, então, nem se fala.

O que me restou foi a indignação. Saltei para o meu século, saquei meu celular. Coloquei minha senha, o aparelho acendeu, senti-me poderoso e me rebelei ao tirar uma foto do crachá do Capitão do Mato para uma possível denúncia. Ele não me chicoteou, deixou-se… Talvez essa seja a maior lição do episódio: a incógnita.

Mesmo assim fiquei preso, não saí. Comi um Cheeseburger salgado e queimado oferecido por uma professora que me fuzilou ao dizer que fui “invasivo” ao clicar o capataz, quer dizer, o Capitão do Mato, o encarregado. Justificou-se que não era com ele que eu tinha que tomar aquela atitude, em suas palavras, “ele não foi preparado para ocupar aquela função”.

A conclusão que tiro do episódio é a de que o escravo existe, só mudou a forma, mas sua essência prevalece, assim como a do Capitão do Mato, também. Os conteúdos estavam ali, patentes.

Quanto ao Senhor de Engenho, a forma ficou mais sofisticada ainda, aparentemente não assume aspecto físico, e por se tornar menos denso ganhou mais poder de onipresença, onisciência e onipotência. Seu engenho é outro, a ponto de fazer um educador jogar a seu favor. Que engenharia perversa…

E ri-se a orquestra irônica, estridente… / E da ronda fantástica a serpente  / Faz doudas espirais …” (Castro Alves)

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CINEMA PODE SER LUZ NO ESCURO

No Brasil da pré-copa tensa, com guerra entre bandidos, ataques as UPPs, policiais nas ruas, milícia expulsando moradores do Minha Casa Minha Vida, etc… Um dado interessante: as maiores bilheterias nos cinemas neste final de semana foram, respectivamente, “Homem Aranha” e “Capitão América”, que sozinhos ocupam 1.706 salas, mais da metade do nosso parque exibidor. Levaram juntos mais de 2 milhões de pessoas aos cinemas.
“Getúlio”, um dos presidentes do Brasil que mais tempo ficou no poder, levou pouco mais de 136 mil cinespectadores nas 177 salas que ocupa, ou seja 10% do total abocanhados pelos heróis estadosunidences.
“Alguma coisa está fora da ordem…”? – Não!
Em Guadalupe existem dois cinemas (que bom!) um do lado de cá e outro do lado de lá (da Avenida Brasil). O de cá, o nosso, o Ponto Cine, com apenas uma sala está com dois filmes brasileiros: “Getúlio” e “Os dias com ele”. O de lá tem 5 salas, três delas ocupadas com Homem Aranha e outra com o América.
Vale uma reflexão!

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UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 3

A terceira semana da Facenovela: “Um rolezinho em Narcisópolis”

15 – Fecharam o caixão. Apertaram as borboletas no entorno da tampa. Os papa-defuntos já tinham estacionado o carrinho na porta da capela. Botaram o morto sobre o carrinho e partiram em direção à campa da família.

A essa altura ninguém falava mais da vida do morto e sim da avacalhação e desdém por parte dos Black Blocs. Como tem maluco pra tudo, teve gente que até ensaiou comprar uns rojões e soltá-los aleatoriamente pra botar culpa nos moleques, pra situação não passar em branco. Mas como só tinham cagões e puxa sacos ali a ideia não foi pra frente.

Instalaram as roldanas na borda da campa, botaram as cordinhas no caixão e quando este ensaiava descer se despregou e foi bater lá no fundo.

- Ô defunto pra sofrer depois de morto! – Disse o capelão que tentava dirigir a cerimônia.

- Se a vida foi só prazer, que desconforto o infeliz passa agora, se antes era só a cara quebrada, agora também é a bunda – lamentou uma velha.

O que houve depois? Maior sacanagem, mas isso fica pro próximo rolezinho.

16 – Assim como fecharam o caixão rapidinho na capela, tamparam a campa e a selaram com massa de cimento. Cagaram e andaram pra bunda quebrada do morto. Não houve reza, nem culto, nem pregação. Três homens que consolavam as amantes do falecido as levaram pra casa pra um consolo completo.

A pequena multidão foi dissipando aos poucos e só restou a viúva. Esqueceram dela assim como seu marido a esqueceu a vida inteira.

Ela abriu sua bolsa, sacou um baton, em seguida um espelhinho. Rabiscou os lábios, esfregou um no outro, se olhou no pequeno espelho e lembrou da gorda Eurídice. Abaixou o espelho, aprumou o olhar e foi em direção à casa de papelão.

Cheirou as flores de plástico, acariciou alguns porta retratos de mortos e imaginou o quanto Eurídice devia ser feliz. Quando quase pedia a Deus pra ser igual a louca, tomou um susto com um vulto que quase lhe atropelou, deu um enorme grito que quase acordou os defuntos, mas isso fica pra um outro rolezinho.

17 – Enquanto a viúva gritava desesperada aos berros com o susto causado pelo vulto, os papa-defuntos tentavam acalmá-la.

- Calma dona, não foi nada de mais. Foi apenas o carrinho que escorregou da nossa mão e quase atropelou a senhora! – disse um dos funcionários funerais.

- Nossa pensei que fosse um espírito, um fantasma ou mesmo a Eurídice – disse a viúva.

- E o que a senhora tá fazendo aí na casa dela? – indagou um outro funcionário.

- Tava justamente querendo ver a Eurídice!

- Mas com todo esse medo?

- Pra o senhor ver como é a vida… essa mulher de alguma forma mexeu comigo. Preciso vê-la.

- Pode tirando o cavalinho da chuva que ela não tá mais aqui, não.

- Não! E tá aonde?

- Tudo indica que ela foi pra inauguração de uma tal lagoa em Narcisópolis.

A viúva adentrou a casa de Eurídice, seu cercado de papelão, sentou-se no chão, baforejou um resto de charuto, fechou os olhos, mas isso fica pro próximo rolezinho.

18 – No meio daquelas baforadas no charuto e com os olhos bem fechados a viúva decidiu que não mais sairia dali.

Antes da lagoa ser inaugurada, de Bete ser pescada e de Carioca dar a primeira mijada na cratera ainda seca. Sim, porque carioca teve aquele surto todo porque quando estava mijando ouviu um grito vindo do outro lado da rua.

- Que isso o maluco, tá maluco! Não pode mijar aí não!

Foi Nelson, o abandonado, que gritou de dentro da sua casa. Carioca correu e, como todos sabemos, caiu. Começou a ver gente morta em lugar que nem gente tinha. Avião desovando bombas do céu, até que fugiu de si mesmo e foi dá com o menino macaco.

Nelson era um aposentado fofoqueiro que se metia em tudo. Tinha opinião pra tudo. Só não fazia nada. Por causa de transformar o campo de futebol em lagoa, quase saiu no tapa com seu Nilo. Mas isso fica pro próximo rolezinho.

19 – A parte da praça que viraria lagoa era um campinho de futebol. Um campinho de barro puro. Seu Nilo que organizava a pelada organizada. Sim, porque havia também a desorganizada, a dos com camisa contra os sem camisa. A do seu Nilo não, era tudo com camisa e grife de time: flamenguinho, vasquinho, palmeirinha…

Seu Nilo promovia campeonatos com as taças bancadas do próprio salário de funcionário público, as camisas também, mas os moleques tinham que pagar uns centavos pela lavagem das que usavam. Durante a semana o quintal do Nilo era tomado pelos varais com as camisas esticadas, lambidas pelo vento e aquecidas pelo sol.

Seu Nilo apitava também e era o dono da bola. Na verdade seu Nilo deve ter sido um perna de pau quando criança e agora estava compensando seu passado. Era bom pros moleques, mas se estourava à toa com os adultos. Logo quem foi dar a notícia pro dono dos times, da bola, do apito e dos troféus que não poderia mais ter futebol ali na praça, o pela saco do Nelson, mas isso fica pro próximo rolezinho.

20 – É foi Nelson quem deu a notícia ao Seu Nilo que não poderia mais usar a praça pros seus campeonatos.

- Pode ter mais pelada não. Não viu o anúncio na placa?

- Que placa? Que anúncio? – retrucou Nilo.

- Pô, tu tá cego, aquela ali – apontou Nelson para uma placa de pouco mais de trinta centímetros, pregada numa estaca que fora enfincada no chão de barro.

- Que babaquice é essa agora, o sindico de merda! – Esbravejou Nilo, já partindo pra ofensa.

- Merda é teu filho, teu pai e toda a tuas gerações, seu Office boy escroto…

Seu Nilo era funcionário do Banco do Brasil a trocentos anos, entrou lá ainda garoto, aos 14 anos, foi promovido várias vezes. Ganhou diploma de funcionário padrão. Chegou a tirar fotografia como o presidente da instituição da época, mas sofreu um acidente que o deixou impossibilitados de exercer algumas funções, mas isso fica pro próximo rolezinho.

21 – Nilo quase virou gerente. Tentaram aposentá-lo, mas ele apelou, se fizessem isso morreria: o banco e os garotos das peladas eram sua vida. Decidiram poupá-lo, mas para mantê-lo só mesmo como uma espécie de Office boy. Mas dá forma que Nelson falou foi pejorativa e o técnico, juiz, dono dos jogos de camisa e da bola não gostou.

- Olha aqui seu à toa, vagabundo da terceira idade, o problema é que você é um recalcado. Quer que eu conte a sua história aqui pra todo mundo saber?

Nelson não deu um pio. Ameaçou até contrapor, mas pensou no seu passado e botou o rabinho entre as pernas.

Seu Nilo cresceu: – nós vamos jogar nessa merda!

- Nós quem, cara pálida? Você acha que dá pra rolar bola com todos esses buracos? – Disse o Iluminado, do alto de sua sabedoria.

Seu Nilo não tinha notado ainda tal detalhe. Quando se enraivava ficava cego. Ficou puto. Mordeu os beiços. Partiu pra cima do Iluminado, mas isso fica pro próximo rolezinho.

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UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 2

A segunda semana da Facenovela: “Um rolezinho em Narcisópolis”

8 – Tem dias que até os loucos ficam mais loucos do que costumam ser. Foi o que ocorreu com Eurídice quando soube que seu Conde evaporou – é, ela imaginava que Carioca era um Conde dono de todo o condado de Narcisópolis -, sumiu pra não casar com ela. Logo ela, a mulher mais linda de Ricardo I. Bom, ela se imaginava linda e acreditava ser uma Condessa, dona do condado Ricardo I – que merda, cabeça de maluco é fogo!

Quem começou a botar essas coisas na cachola da pobre maltrapilha foi a molecada, seus verdadeiros demônios obsessivos. Eurídice vivia bem, comia comida do lixo, morava no coreto da praça central de Ricardo I. Dormia com os vira-latas e os pombos. Mas a garotada não lhe dava paz: “Eurídice vai casar com o Carioca, Eurídice vai casar com o Carioca, Eurídice vai casar com o Carioca…”, que tentação. O jeito era se refugiar no cemitério. Lá teria um pouco de paz.

Só vendo pra acreditar o que a preta gorda fez na sua nova morada: pegou umas jarras com flores de plásticos de um túmulo aqui, uns porta-retratos de falecidos de outro ali, mas o cafofo da Eurídice fica pro próximo rolezinho.

 

9 – Com as flores de plástico, os porta-retratos, inúmeras caixas de papelão e alguns alguidares de barro conseguidos nos despachos de macumba, Eurídice construiu seu lar, seu novo castelo.

Ficou uma mulher mais leve, mais sóbria. Fez amizade com seus desafetos locais, os urubus. Passou a alimentá-los, com as sobras que não serviam pra ela. Passou a viver em harmonia com os mortos, que assim como as pestes das crianças viviam lhe atazanando as ideias.

Mas tudo isso mudou com o sumiço de Carioca e notícia ruim vem a cavalo. Algum infeliz foi contar o fato pra ela logo no enterro do vereador.

Quando um puxa-saco proferia algumas palavras diante do caixão, num discurso baba-ovo , Eurídice entrou com o urubu morto – agora, de novo, uma inimiga espécie -, e foi uma correria que só.

- Chega, agora quem vai falar aqui sou eu – Gritou Eurídice cuspindo fogo pelas ventas. E o que a mendiga fez e disse não dá nem pra acreditar, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

10 – Realmente foi de pirar o cabeção. Na capela Eurídice começou a rezar o defunto, da forma dela, é claro, e fazia o sinal da cruz no moribundo com o urubu morto.

Depois começou a xingar o falecido vereador, tinha gente da oposição na cerimônia que nessa hora se aproximou. Alguns até pronunciaram algumas reflexões: – “tá vendo? Até mendiga…”

Mas que nada, a doida estava surtada, começou a falar que os dois se conheceram no BBB, ela e o morto, que o falecido queria se aproveitar dela debaixo do edredom, que ela era moça de família. Tinha um namorado, o Carioca, todo mundo sabia, e aquele assanhado queria passá-la sob as cobertas.

- O Bial sabe disso – gritava desesperada a louca. O Bial, o Bispo Macedo, o Padre Marcelo, até o Papa, se duvidar. Eu sou virgem!

Nessa hora os papa-defuntos entraram no circuito pra retirá-la de lá. Piorou a situação. O tempo fechou de vez. O urubu morto ficou quase depenado, virou sua única arma de defesa, mas isso fica pro próximo rolezinho.

11 – Foi urubuzada pra lá urubuzada pra cá nos papa-defuntos e sorte que o urubu já tava morto senão morreria de novo, até que alguém gritou: – Ih, a lá quem tá chegando no palácio da Eurídice, o Carioca.

Aquilo no ouvido da doída soou como uma sinfonia. Como naqueles anúncios românticos de televisão, Eurídice se desfez do urubu,  desvencilhou-se dos papa-defuntos, as pessoas que estavam amontoadas na porta da capela abriram um corredor pra ela passar e, como uma baleia seca e fedorenta, ela correu em direção à sua casa florida com flores de plásticos e empapelada com papelão.

A viúva do vereador nem chorava mais, se pudesse matar o marido, matava! Não era por causa da Eurídice não, é que só naquele quadrado apareceram três amantes do falecido…

- Pena que esse infeliz tá morto senão ele ia ver comigo! – Rosnava a viúva com espuma a lhe escorrer da boca. Quando as três amantes de uma vez só resolveram dá o último beijo no falecido, não prestou. Mas isso fica pro próximo rolezinho.

12 – O corpo de Eurídice correu, mas parecia que seu espírito tinha permanecido ali e pior, incorporado na viúva. Quando esta viu as três amantes beijando a testa do falecido ela passou a mão no urubu deixado por Eurídice e deu uma surra nas amantes com ele. Os papa-defuntos riam pra caramba da cena. – Esse é um cara polêmico até depois de morto! – Disse um deles.

A turma do deixa disso logo chegou para apartar. Um grupo de senhoras pediu para que as amantes abandonassem o recinto e as acompanharam até lá fora. Um zelador recolheu o urubu da mão da viúva e o tirou dali, graças a deus, porque ninguém aguentava mais aquela catinga. E a esposa traída do falecido mulherengo, em estado de choque, permaneceu intacta.

Continuaram os intermináveis discursos de melação, babação, adjetivação. Nada substantivo.

- … Jamais esqueceremos deste mártir que acreditava na política como religião – exagerava um bigodudo na cabeceira do caixão -, um homem rigoroso, rígido, honesto, um pai de família…

Pra que ele disse isso! Despertou a ira da viúva. Ela partiu pra cima do defunto, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

13 – A viúva partiu pra cima do defunto e este nem teve tempo de se defender, já estava nocauteado desde o dia anterior. Mas ela não perdeu tempo, mandou um Jab direto e três martelos que a cabeça do morto chegou a pular três vezes. As rosas brancas que escondiam o corpo do falecido voaram feito as penas que saíram do urubu enquanto a viúva dava com ele nas três amantes.

- Segura essa mulher aí! – Gritou a mesma voz que avisou a falsa chegada de Carioca para despistar Eurídice.

- Segura porra nenhuma – disse outra do fundo da capela -, esse bosta não valia nada! Traiu a mulher, os eleitores e seus próprios pares!

- Eh, o cara! Parzinho do vereador! Cala a boca aí o boiola! – Sacaneou um gozador que estava do lado de fora, confortando uma das amantes.

A capela já estava virando um pandemônio, com um montão de diabos querendo brigar e um inferno inteiro de capetas os atiçando, quando chegou uma tropa vestida de preto, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

14 – O pau tava comendo solto no velório do ex-vereador, quando chegou um bando vestido de preto. Os da oposição que estavam ali só pra fazer média, não tiveram dúvida: era uma coisa orquestrada, política é assim, até na hora da morte neguinho paga um bando de gente pra fazer número. Agora estavam inovando, vestiram todos de preto pra irem ao enterro.

Que nada, pra surpresa geral, além de roupas pretas os caras estavam mascarados. Era um bando de Black Blocs. Ninguém nunca tinha visto Black Blocs em Narcisópolis muito menos em Ricardo I, era a primeira vez, mais um sinal de progresso.

Mas como o governador do estado não foi ao enterro, nem o prefeito da cidade, sequer um policial ou um jornalista, decidiram dar às costas e voltar de onde vieram.  Receberam a maior vaia dos que estavam no velório, que a essa hora já tinham parado de brigar e acordado um pacto contra os mascarados de preto.

Os Black Blocs não quebraram nada enquanto a cara do morto estava toda arrebentada. Decidiram fechar o caixão, mas isso fica pro próximo rolezinho.

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UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 1

Criei uma Facenovela chamada “Um rolezinho em Narcisópolis”, onde todos os dias eu posto um microcapítulo na minha fan (www.facebook.com/adailtonpontocine?ref=hl  )  e no meu perfil (https://www.facebook.com/adailton.medeiros.332 ).

Muita gente está lendo, comentando, dando palpites, curtindo e até compartilhando. Muito legal isso. Agradeço ao cineasta Alan Minas, que leu o original escrito para outro suporte e me deu esse toque de lançar na rede.

Bom, mas a cada sete dias publicarei o conjunto da semana aqui, com os sete microcapítulos, isso durante sete semanas. Por que tantos setes? – Porque tem muito a ver com Narciópolis, você verá!

 

1 – Narcisópolis não é nenhum Shopping Center, lugar de brancos bacanas e pretos selecionados. Narcisópolis é um bairro do subúrbio da Cidade Maravilha, que fica na Baía do Esplendor.

A convocação aqui é prum rolezinho diário pra visitar a sua vidinha mais ou menos e conhecer seus personagens exóticos, muito mais humanos que muitos que viajam por aqui na internet ou que passeiam nos shopping.

O povo de lá resolveu transformar uma praça pública numa lagoa. Uns dizem que era para eles ficarem se refletindo no espelho dágua e se adorando cada vez mais. Outros, que era por inveja dos pscinões de Ramos e de Deodoro, o primeiro de água salgada; o segundo, doce. A verdade é que todos tinham mania de grandeza, desandaram a cavucar a praça, meteram um gato, fizeram uma puxada clandestina dágua, inauguraram a Lagoa e na primeira pesca pescaram uma sereia, um peixe que virou mulher, a mais bonita e gostosa do pedaço, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

2 – Bete foi pescada pelo Iluminado. Ah, Bete era o peixinho, que virou sereia e numa questão de uma tarde virou um mulherão de dar gosto. Peitão mais apetitoso que o da Mulher Melão, bundão mais saliente do que o da Valesca Popuzuda. Cresceu assim, de uma hora pra outra. Não sabia falar, não teve tempo de aprender, mas provocou uma ciumeira danada em todas as mulheres. Nas casadas então, nem se fala. Não teve uma que não botou seu homem pra casa por causa de Bete.

O Iluminado era um cara sinistro, tinha solução pra tudo, por isso o apelido de Iluminado. A ideia mesmo de fazer um gato e roubar uma pena dágua foi dele. Não só teve a ideia como realizou a operação. O cara era virado. A sacada de inaugurar a lagoa com uma pesca também foi dele, porque lagoa que se preza tem que ter peixe. Dizem inclusive que foi ele que foi pegar os peixes num lugar aí especializado em fornecer peixes vivos, os transportou e os lançou na lagoa. Dizem, mas ninguém afirma, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

3 – Mas antes mesmo da lagoa ser enchida com a água roubada, quem passou por lá foi o Carioca, um louco narcisopolitano. Ficou louco na guerra, dizem. E ali naqueles buracos cavados em plena praça reviveu seus momentos de batalhas. Surtou a ponto de achar que estava em trincheiras. Começou a ver seus compatriotas mortos pra todo lado que olhava. Se jogou no chão, tapou os ouvidos, gritou, olhou pro céu pra pedir proteção a Deus e se deu mal, viu inúmeros aviões a lançarem bombas sobre a sua cabeça. No desespero se levantou e saiu correndo. Em disparada atravessou uma pequena rua que dava na outra praça.

Não é que na outra praça Carioca deu de frente com o menino Macaco, quer dizer com o Chita, o Samuca, Samuel da Bíblia, Samuca da família, Chita da garotada, apelido que ganhou pela grande aparência de seu rosto com a de um macaco, a Chita do Tarzan.

Samuca era o capeta em carne e osso, viu em Carioca um prato cheio, deu logo ordem: – auto lá soldado!  Carioca parou, ofegante bateu continência, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

4 – Poucos minutos antes do encontro com Carioca, Samuca esteve com Jorge Maluco, outro louco de Narcisópolis. Jorge Maluco corria pelas ruas do bairro montado num cabo de vassoura, que dizia ser seu cavalo. Queria casar-se, mas não encontrava noiva que o quisesse. Passou a se penalizar se autoflagelando, com um fio dobrado batia em si mesmo imaginando chicotear seu cavalo: – Corre danado! Corre preguiçoso!

- Que isso? Por que você tá chorando? – perguntou Samuca a Jorge.

- Porque nenhuma moça quer casar comigo. Cansei de ser gente… – retrucou o louco.

- Cansou de ser gente, como assim? – já zombando do pobre infeliz.

- Cansei. Agora eu quero é ser cavalo de vez. Chega, quero ser cavalo!

- Que porra é essa o maluco, ficou doido, virar cavalo…

- doido por quê? Você não virou macaco!

Chita ficou puto, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

5 – No encontro com Carioca, Samuca e Jorge Maluco ainda estavam juntos. Um, menino macaco; outro, homem cavalo. Mas antes disso tudo ainda tinha um rolo danado porque existia a Eurídice, que ficava muito puta quando a molecada gritava “Eurídice vai casar com o Carioca”.

- Eu quero que vocês todos vão queimar nos quintos dos infernos seu bando de merda cagada! – Gritava a louca por baixo de suas múltiplas maltrapilhas vestimentas. Short por cima da rasgada calça comprida que ficava por baixo de uma saia suja. Blusa por cima de blusa e peitos ainda de fora.

A molecada botava a maior pilha, até que Eurídice foi morar no cemitério. Bebia cachaça dos despachos, invadia velórios, dava porrada nos urubus. O cemitério habitado por Eurídice deixou de ser lugar de paz.

Mas ela foi se acalmando e até se acostumando com a ideia de casar-se com Carioca, mas foi aí que entrou Jorge Maluco na sua história, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

6 – O encontro de Chita com Carioca, sob o olhar de Jorge Maluco.

- Auto lá soldado!

- Senhor eu vim de lá do campo de batalha. Tá todo mundo morto. Deve ter alguns feridos. Precisamos de reforço, a minha cabeça tá pegando fogo e eu to meio surdo de tanto tiro. – Disse Carioca, ofegante, descontrolado por dentro, mas numa postura de dar inveja. Havia batido continência pro Samuca e falou tudo isso em posição de sentido.

Jorge maluco ficou mais maluco ainda quando viu aquele soldado, que, como já dito, era oficial, mas pra ele era General. Se há alguns minutos havia decidido que não seria mais gente e sim cavalo, agora tinha outra certeza: queria ser o cavalo daquele general.

- E de que você precisa soldado para chamar reforço? – Perguntou o menino macaco.

- de pelo menos um cavalo para alcançar a tropa, senhor! E nessa hora Jorge Maluco se apresenta, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

7 – Ao se apresentar pro General, sob o comando de Chita, Jorge maluco deu uma risada, um verdadeiro relincho. Rodopiou pra lá e pra cá na frente de Carioca. Gritava de alegria.

- Soldado, monte nesse cavalo, alcance a tropa e manda que todos retornem pra gente vencer essa guerra! – ordenou o menino macaco com sua voz de comando.

Já se pode, Carioca montou nas costas de Jorge Maluco, que envolveu seus braços nas pernas do General, pra dar mais firmeza e, em disparada, foram sumindo no final da praça. Só se ouvia os gritos de felicidade de Jorge Maluco por ser cavalo de patente.

Chita se mijou de rir, assim como outros moleques que estavam escondidos atrás de um muro acompanhando tudo de perto.

Eurídice ficou sabendo dessa história. Passou a beber mais cachaça das macumbas, a ficar mais violenta. Matou um urubu a pauladas e entrou com ele numa capela onde estava sendo velado um ex-vereador local, todo mundo saiu correndo, mas isso fica pro próximo rolezinho.

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