DO CHOQUE ESTÉTICO ÀS MEDALHAS

Nos últimos meses venho me dedicando ao projeto Cine Literário como se fosse um achado – e olhe que ele teve início em 2004. Desde o seu lançamento ele vem sofrendo várias arrumações, aparos de arestas, lapidações, até que no ano passado achávamos – eu e a equipe do Ponto Cine – que ele havia ganhado o formato perfeito. Finalmente o Cine Literário passou a ser compreendido como um projeto com duas vertentes.

A primeira como uma Mostra de Filmes Brasileiros baseados em Livros da Literatura Brasileira, onde as exibições aconteceriam seguidas de debates com os respectivos diretores dos filmes e escritores dos livros que os originaram. Cada um falando do seu processo criativo, circunstâncias históricas, políticas, sociais e geográficas que os influenciaram; e suas técnicas para adequar a sua criação ao suporte adotado, ou seja, um o livro; outro, o filme.

A segunda, com distribuição de Midiotecas às Escolas Públicas, onde nelas seguiriam um acervo com cinquenta títulos de livros e cinquenta filmes em DVD construídos a partir dos livros, todos duplicados (cem e cem). Um catálogo contendo informações sobre os livros e filmes. Uma TV de alta definição de 47” e um Blue-Ray Player. E dez programas de auditório filmados e editados. Ou seja, aqueles debates com escritores e diretores falando dos seus processos criativos. E aí nos deparamos com mais uma surpresa, o projeto não estava tão redondo ainda.

Lembramos que durante os debates constantemente havia perguntas, tanto para os escritores quanto para os diretores, que os deixavam de saias justas. Ou seja, cansamos de registrar respostas dadas por eles do tipo: “quando eu escrevi não pensei nisso que você está falando”, ou “o que você enxergou eu nunca vi no meu filme, pra mim é uma novidade”.

Encontro dos alunos e escolas participantes do projeto

Encontro dos alunos e escolas participantes do projeto

Percebemos que tínhamos que dar voz e imagem a mais um inventor neste processo, a plateia – leitores e cinéfilos, ou aspirantes a esses dois segmentos. Desta forma os programas ficariam completos e estimularia ainda mais os professores e estudantes a realizarem debates em suas escolas após as leituras e exibições promovidas por eles. E, por outro lado, desmistificaríamos as figuras dos escritores e diretores: alunos e professores perceberiam que eles são pessoas comuns, que assim como qualquer mortal são capazes de fazer coisas inconscientemente, mesmo dentro de algo tão pensado, como escrever um livro ou dirigir um filme.

Aprimorado mais uma vez, projeto arredondado, agora era embalar e vender. O que foi feito. Mas aí entra a Vale, a Fundação Vale, nossa primeira investidora nesta nova edição do projeto, e nos faz uma provocação: executar o Cine Literário nas suas Estações Conhecimento de Deodoro e do Engenhão, em Engenho de Dentro, para um público de atletas, ou melhor, futuros atletas. Meninos e meninas em idade escolar que vêm superando as adversidades de suas vidas pobres e de poucas oportunidades. Em curtas palavras, o desafio era juntar cultura e esporte.

De doer o fígado. Depois de tudo pronto, mais essa. O que se há de fazer! Partimos para cima e para a nossa surpresa o quanto vimos aprendendo. Que troca! Atleta tem disciplina, é focado, obstinado por superação, quer vencer, mas de forma justa, honesta. O superar-se é uma medida encontrada sempre no outro. Por isso que é importante vencer o outro quando este está na sua melhor forma. E às vezes o outro é si mesmo, é o tempo da sua melhor prova, é o seu próprio recorde. Que fantástico.

Aqueles meninos e meninas do Estação Conhecimento só querem saber de medalhar – termo que nos fascinou, que engenhosidade em transformar em ação aquilo que é mais substantivo para eles: a medalha -, e nós ali, um corpo estranho. “Medalhar”, “Corpo estranho…” é neste momento que a lampadazinha acendeu de novo. A liga dos nossos ingredientes estava aí. O Corpo Estranho não somos nós e sim a Literatura e o Cinema Brasileiro. Nós somos apenas os indutores desses corpos estranhos que estão provocando um choque estético nesses meninos e meninas, que pouco ou nenhum contato tiveram com estes dois segmentos da arte brasileira.

Alunos na oficina de catalogação 8ª CRE

Como o Cine Literário é um projeto de estímulo à leitura através do cinema e do cinema através da leitura. E como aqueles meninos e meninas são obstinados, cada dia mais querem livros e filmes. Chegamos à conclusão que devemos medalhá-los, também, por isso – outro achado e um grande link com o esporte.

Quem receberá as medalhas – ouro, prata e bronze -, na verdade, serão suas escolas. Não porque estes garotos estão competindo entre si como quem leu mais obras que o outro ou quem assistiu a mais filmes que o amigo, mas porque eles são verdadeiramente vencedores em todos os aspectos. Estão superando a média anual de leitura por brasileiro e estão assistindo a mais títulos de filmes brasileiros que a maioria dos seus compatriotas.

Suas escolas, em breve, tornar-se-ão exemplos, não como instituições que encerram em si o conceito de Educação, mas como Instituições agregadoras e abertas, conectadas em rede, capazes de associar todos os conjuntos de informações, conhecimentos e práticas internas e externas.

Ah, e da parte do Cine Literário, quando uma escola estiver com seu quadro de medalhas virtuais cheio não significa o fim, apenas o encerramento de um ciclo. Neste momento ela mudará de faixa, da branca para a laranja, por exemplo, como os vencedores nas artes marciais, e esta simbologia estará lá no site do projeto para todo mundo ver. Mais ai já é outro papo.

Hoje o Cine Literário conta, também, com os patrocínios do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico -, e Chemtech. O projeto acontece no Rio de Janeiro, mas em breve seguirá para Recife, Brasília e Florianópolis. Ainda faltam captar algumas cotas. Estamos na cara e na coragem, no risco e na crença. Assim como aqueles meninos e meninas, seremos vitoriosos.

Adailton Medeiros

Sobre Adailton Medeiros

Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros. Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011. Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008, Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do acesso ao cinema brasileiro.
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18 respostas a DO CHOQUE ESTÉTICO ÀS MEDALHAS

  1. Vocês já são vencedores, Adailton. Esta é mais uma medalha de ouro que vocês levantam e, generosamente, dividem com o Brasil inteiro. É um privilégio conhecer o trabalho do Ponto Cine e de ser contemporâneo desta experiência absolutamente inédita no cinema brasileiro.

  2. Olá, Adailton, tivemos a honra de estarmos aí no Ponto Cine para um “diálogos com o cinema” neste último dia 2 e vi na entrada esse lance de Cine Literário e não imaginava que era um projeto tão grandioso e tão importante para o aluno! Parabéns! Medalhas de ouro à todos!
    Ricardo Rodrigues- cgb – cinema de guerrilha da baixada

  3. Paula Brandao disse:

    Adailton como sempre fantástico!! Faço parte da sua torcida organizada (ou nem tanto!!). Mais uma iniciativa heróica do Ponto Cine!

  4. Eder Delatore disse:

    PARABÉNS, Adailton!

    Vocês merecem todo sucesso e vitória. Ouro pra vocês!

    Deus abençoe que tudo seja alcançado conforme o almejado.

    Abraços

  5. Cineclube Idéias em Movimento disse:

    Parabéns, Adailton!
    Mais uma vez, por mais essa vitória. Que projeto fantástico! Com certeza a competência, dedicação e paixão necessárias para realizar um projeto como esse só se encontram mesmo em verdadeiros ‘atletas olímpicos’. Que bom que as notícias do Ponto Cine são sempre tão positivas!

  6. Conceição disse:

    Cara, você me deixa cada vez mais orgulhosa pelo privilégio de conhecê-lo. Atitude é a palavra que te define. Generosidade complementa. Partilhar seu conhecimento com a percepção da importância que ele carrega, do quanto ele constrói e modifica todo um contexto de uma vida, que sem essas informações, seriam limitadas e vazias. Isso traz um diferencial incrível, que sendo absorvido no presente, refletirá no futuro de maneira inconteste. Não há herança maior.
    Parabéns a você e a todos que fizeram parte do projeto!

    • Adailton Medeiros Adailton Medeiros disse:

      Caramba, Conceição, que profundidade. Valeu! As coisas que realizamos são tão naturais, gostosas de fazer, que nos divertimos tanto com elas como jogar bola, brincar de pique, amarelinha, etc. Aí seus conceitos, seus princípios filosóficos, acabam sendo absorvidos por todos quase que de forma lúdica, por prazer. A garotada entrou nessa: aprender pelo prazer, conhecer pela diversão, experiementar pelo desafio. Bjs.

  7. Aline Franca disse:

    O Cine Literário é um projeto belíssimo e merece todas as medalhas. Tem coisa melhor do que Cinema e literatura? Com certeza não. Parabéns pelo projeto!

  8. Evaldo Chaves disse:

    Adailton, sou Ponto Cine desde criancinha, nós ficamos muito felizes como o desenvolvimento de novos projetos, vida longa para esse maravilhoso espaço.
    Costumo dizer que no Brasil o que não falta é gente talentosa, dando a oportunidade que todos merecem eles ficam em evidência e nos dão e darão momentos de grande alegria e emoção. Você e sua equipe fazem muito bem esse trabalho, fisgar essa turma criativa que não costuma receber incentivos do Estado, e dar a ela a oportunidade que necessitam para que se tornem cidadãos plenos.
    Grande abraço.
    Evaldo

  9. Adailton Medeiros Adailton Medeiros disse:

    Valeu, Evaldo. É o nosso papel como sociedade, a nossa missão como ativistas culturais, o nosso prazer como seres humanos. Tamos juntos. Obrigado.

  10. Bernadete Duarte disse:

    Receber a notícia de que jovens da periferia da minha cidade estão portando armas de conhecimento e de esperança – onde muitos carregam e se orgulham de carregar as letais – oxigena a minha alma e, certamente, a de muitos brasileiros.
    Desejo que você , sua equipe e os jovens do projeto Cine Literário brilhem. De estação em estação vocês vão cruzar a reta de chegada , colher os louros da vitória . Muitas medalhas de ouro na nova empreitada . Parabéns!

  11. Maria Bernadete Tomas disse:

    Ao assistir globo cidadania, 19/10/13 tomei conhecimento do ponto cine.
    Gostaria de perguntar, o filme flores raras já foi exibido ?

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