Inovação com o Cine Literário

Escolas, Mostra e Programa de TV

Cinema e Literatura falando a mesma língua

Nanda Costa

Nanda Costa num bate-papo com o público.

Dos dias 19 a 23 de agosto, Guadalupe, bairro da zona norte carioca, foi uma espécie de “capital” do cinema e da literatura brasileira. Aconteceu no cinema Ponto Cine a Mostra Cine Literário, com exibições de filmes brasileiros baseados em obras da nossa literatura, seguidas de debates com grandes nomes desses dois segmentos da arte.

O Ponto Cine sofreu uma enorme transformação para receber nove cineastas – Nelson Pereira dos Santos, André Alves Pinto, Suzana Amaral, José Joffily, Rosane Svartman, Flávio R. Tambellini, Renato Terra, Ricardo Calil e Kátia Lund -, oito escritores, pesquisadores, jornalistas e críticos – Ziraldo, André Miranda, Daniel Caetano, Tereza Montero, Juliana Lins, Luciano Trigo, Eliane Trindade e Heloísa Buarque de Holanda -, um produtor – Antônio de Andrade -, um roteirista – Paulo Halm -, e uma atriz -Nanda Costa.

Debatedores da Mostra

 

Com um cenário construído e ambientado pelo premiado cenógrafo Derô Martín, dez filmes foram exibidos durante a semana, um pela manhã, outro à tarde. A abertura foi uma homenagem aos cinquenta anos do “Vidas Secas”. Depois seguiu-se com “Macunaíma”, “Uma professora Muito Maluquinha”, “A hora da estrela”, “Achados e perdidos”, “Desenrola”, “Malu de bicicleta”, “Uma noite em 67”, “Sonhos roubados” e o encerramento se deu com “Cidade de Deus”.

Para a realização do evento foi necessário uma equipe de cinquenta e cinco pessoas. Vinte e cinco do Ponto Cine, treze da terceirizada BLG Entretenimento, dezesseis da Samba Filmes e dois motoristas, sem contar com o intermediador dos debates, Léo Almeida, e com o apresentador, o ator  Caio Blat. Na verdade uma superprodução, porque a intenção é que a Mostra vire um programa de televisão.

_PVF8271_web

 

Um marco

O Ponto Cine é um cinema que faz história. Surgiu em 2006 como a primeira sala popular de cinema digital do país. Inovou também ao levar para Guadalupe grandes nomes do cinema, da TV, da música, como Caetano Veloso, e até do futebol, como Petkovic, para bate-papos com a plateia. Estratégia que o levou à maior taxa de ocupação das salas de cinema para os filmes brasileiros e a ser premiado pela Agência Nacional de Cinema como o maior exibidor de filmes brasileiros em todo o território nacional.

“Todos nós que trabalhamos no Ponto Cine nascemos e moramos aqui no “subúrbio”. Você crescer ouvindo que é “sub” “urbano” não é mole. Traduzindo, isso significa dizer que você é cidadão de segunda categoria. Tudo que a gente quer é quebrar isso, o esforço é enorme. Portanto, para ligarmos a cidade, construímos uma ligação com o País, que é maior ainda. Aqui na Mostra Cine Literário tivemos, por exemplo, Suzana Amaral, Ricardo Calil, Katia Lund, que se propuseram a vir de São Paulo por entenderem a importância desse trabalho. Se para nós que somos da produção isso já é fantástico imagine para o público”, disse Thiago Sales, coordenador de produção da Mostra e do Ponto Cine. E concluiu: “uma mostra como essa é uma oportunidade para as pessoas daqui, frequentadores do Ponto Cine, professores, estudantes e donas de casa ampliarem seu repertório”.

plateia e nanda_web copy“Falo sempre que procuramos ofertar o que há de melhor para esse público. Seja na programação, no conforto, no atendimento. A Mostra Cine Literário é um exemplo, a equipe realizadora é quase do tamanho da própria capacidade do cinema. Isso é respeito ao público e ao nosso território. Quando a gente dá dignidade para as pessoas elas nos devolvem com cidadania. Imagine isso quando virar programa de televisão? Pô, o que há de melhor do cinema e da literatura saído de Guadalupe! O Ponto Cine deixou de ser um cinema para ser também um estúdio de gravação. Neguinho aqui vai pirar”, falou Léo Barros, um dos coordenadores do Ponto Cine.

 

A importância da plateia

“O que eu fico de bobeira aqui é que está sempre lotado. Esses dias mesmo fomos convidados para um debate sobre o “Macunaíma” num local “super super” sofisticado, na zona sul, badalado à beça nos jornais, não vou falar o nome  pra não ficar chato. Eu não pude ir, a minha irmã é quem foi, não tinha meia dúzia de cabeças. Aqui, além de cheio, o público participa à beça, aí dá prazer porque o bate papo rende”, disse Antônio de Andrade, produtor, filho do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma.

Realmente a plateia é o que o Ponto Cine tem de melhor. A atuação na autoestima dos seus frenquentadores desenvolveu neles o sentimento de pertencimento. Percebe-se que há um orgulho em fazer parte do público, cada poltrona é disputada como se fosse um trono, porque ali a plateia é a grande estrela e assim é tratada, como deveria ser em todas as salas de cinema.

 

Adailton Medeiros

Sobre Adailton Medeiros

Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros. Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011. Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008, Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do acesso ao cinema brasileiro.
Esta entrada foi publicada em Adailton Medeiros. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

8 respostas a Inovação com o Cine Literário

  1. Ana Soares disse:

    Tive a feliz oportunidade de participar da Mostra Cine Literário no dia 20/08, acompanhada dos meus queridos estudantes, e companheiras de trabalho. É realmente fascinante uma iniciativa tão valiosa quanto esta. O Cine Literário chegou para a E.M. Dom João VI no fim de 2011, e desde então tem cultivado valores imensuráveis em todos envolvidos. O Ponto Cine é um achado! Quando neste texto acima é possível encontrar uma declaração como “quando a gente dá dignidade para as pessoas elas nos devolvem com cidadania” dá um orgulho tremendo saber que de certa forma fazemos parte desta história, cuidando com afinco do desdobramento deste projeto com ação local de formação de platéia no bairro de Higienópolis. Não poderiam escolher melhor estratégia inicial – atuar na base, no Ensino Fundamental da rede pública de educação. Aplausos ao Ponto Cine! Três “vivas” ao Cine Literário! Volto a dizer, como sempre: contem com a equipe da E.M. Dom João VI.

    • Adailton Medeiros adailton medeiros disse:

      Obrigado Ana Soares.
      A E.M. Dom Joao VI, a direção, você, as professoras que coordenam o núcleo do projeto aí e os alunos que formam a equipe são fantásticos. Grandes parceiros. Entederam a importância do Cine Literário e abraçaram o projeto desde o primeiro momento. Está aí o resultado. O melhor: um conteúdo que a garotada poderá explorar por muitos anos.
      Valeu!
      beijos

  2. Rosa Maria Luz disse:

    Ponto Cine crescendo,crescendo,sem parar.Muito orgulho!Beijos e parabéns a vocês todos.

  3. Cristiano Requião disse:

    Formidável Adailton,

    Me emociono ao ver que ainda há quem trabalhe por prazer e, porque não dizer, ideologia. Manter um espaço de exibição durante todos esses anos com uma trajetória tão gloriosa é para os fortes!!!

    Grande abraço!!! Muito sucesso!!!

    • Adailton Medeiros adailton medeiros disse:

      Obrigado, Cristiano. Retornos como esse seu não só nos emocionam como nos dá a certeza que estamos no caminho certo. Que bom está em sintonia com quem entende o nosso trabalho, dimensiona as nossas dificuldades e valorisa as nossas pequenas vitórias e, ao mesmo tempo, gigantescas vitórias.
      Grande abraço.

  4. Conceição Macedo Nunes disse:

    Cada dia melhor o ponto cine. É a recompensa para quem acredita e gosta do que faz. Mostra a superação e fortaleza diante dos obstáculos que certamente cruzam o caminho de quem tem coragem de inovar. Parabéns é uma palavra muito pequena para expressar minha admiração. Sucesso sempre. Avante guerreiros!
    Bjssssssssss
    Em tempo: Sou suburbana sim, com muito orgulho. Foi aí que vivenciei minhas melhores histórias.

    • Adailton Medeiros adailton medeiros disse:

      Obrigado, Conceição.
      O território passa por uma questão de disputa, identidade, autenticidade e pertencimento. Um retorno desse como o seu é fantástico e nos dá a maior força.
      Bjs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>