UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 2

A segunda semana da Facenovela: “Um rolezinho em Narcisópolis”

8 – Tem dias que até os loucos ficam mais loucos do que costumam ser. Foi o que ocorreu com Eurídice quando soube que seu Conde evaporou – é, ela imaginava que Carioca era um Conde dono de todo o condado de Narcisópolis -, sumiu pra não casar com ela. Logo ela, a mulher mais linda de Ricardo I. Bom, ela se imaginava linda e acreditava ser uma Condessa, dona do condado Ricardo I – que merda, cabeça de maluco é fogo!

Quem começou a botar essas coisas na cachola da pobre maltrapilha foi a molecada, seus verdadeiros demônios obsessivos. Eurídice vivia bem, comia comida do lixo, morava no coreto da praça central de Ricardo I. Dormia com os vira-latas e os pombos. Mas a garotada não lhe dava paz: “Eurídice vai casar com o Carioca, Eurídice vai casar com o Carioca, Eurídice vai casar com o Carioca…”, que tentação. O jeito era se refugiar no cemitério. Lá teria um pouco de paz.

Só vendo pra acreditar o que a preta gorda fez na sua nova morada: pegou umas jarras com flores de plásticos de um túmulo aqui, uns porta-retratos de falecidos de outro ali, mas o cafofo da Eurídice fica pro próximo rolezinho.

 

9 – Com as flores de plástico, os porta-retratos, inúmeras caixas de papelão e alguns alguidares de barro conseguidos nos despachos de macumba, Eurídice construiu seu lar, seu novo castelo.

Ficou uma mulher mais leve, mais sóbria. Fez amizade com seus desafetos locais, os urubus. Passou a alimentá-los, com as sobras que não serviam pra ela. Passou a viver em harmonia com os mortos, que assim como as pestes das crianças viviam lhe atazanando as ideias.

Mas tudo isso mudou com o sumiço de Carioca e notícia ruim vem a cavalo. Algum infeliz foi contar o fato pra ela logo no enterro do vereador.

Quando um puxa-saco proferia algumas palavras diante do caixão, num discurso baba-ovo , Eurídice entrou com o urubu morto – agora, de novo, uma inimiga espécie -, e foi uma correria que só.

- Chega, agora quem vai falar aqui sou eu – Gritou Eurídice cuspindo fogo pelas ventas. E o que a mendiga fez e disse não dá nem pra acreditar, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

10 – Realmente foi de pirar o cabeção. Na capela Eurídice começou a rezar o defunto, da forma dela, é claro, e fazia o sinal da cruz no moribundo com o urubu morto.

Depois começou a xingar o falecido vereador, tinha gente da oposição na cerimônia que nessa hora se aproximou. Alguns até pronunciaram algumas reflexões: – “tá vendo? Até mendiga…”

Mas que nada, a doida estava surtada, começou a falar que os dois se conheceram no BBB, ela e o morto, que o falecido queria se aproveitar dela debaixo do edredom, que ela era moça de família. Tinha um namorado, o Carioca, todo mundo sabia, e aquele assanhado queria passá-la sob as cobertas.

- O Bial sabe disso – gritava desesperada a louca. O Bial, o Bispo Macedo, o Padre Marcelo, até o Papa, se duvidar. Eu sou virgem!

Nessa hora os papa-defuntos entraram no circuito pra retirá-la de lá. Piorou a situação. O tempo fechou de vez. O urubu morto ficou quase depenado, virou sua única arma de defesa, mas isso fica pro próximo rolezinho.

11 – Foi urubuzada pra lá urubuzada pra cá nos papa-defuntos e sorte que o urubu já tava morto senão morreria de novo, até que alguém gritou: – Ih, a lá quem tá chegando no palácio da Eurídice, o Carioca.

Aquilo no ouvido da doída soou como uma sinfonia. Como naqueles anúncios românticos de televisão, Eurídice se desfez do urubu,  desvencilhou-se dos papa-defuntos, as pessoas que estavam amontoadas na porta da capela abriram um corredor pra ela passar e, como uma baleia seca e fedorenta, ela correu em direção à sua casa florida com flores de plásticos e empapelada com papelão.

A viúva do vereador nem chorava mais, se pudesse matar o marido, matava! Não era por causa da Eurídice não, é que só naquele quadrado apareceram três amantes do falecido…

- Pena que esse infeliz tá morto senão ele ia ver comigo! – Rosnava a viúva com espuma a lhe escorrer da boca. Quando as três amantes de uma vez só resolveram dá o último beijo no falecido, não prestou. Mas isso fica pro próximo rolezinho.

12 – O corpo de Eurídice correu, mas parecia que seu espírito tinha permanecido ali e pior, incorporado na viúva. Quando esta viu as três amantes beijando a testa do falecido ela passou a mão no urubu deixado por Eurídice e deu uma surra nas amantes com ele. Os papa-defuntos riam pra caramba da cena. – Esse é um cara polêmico até depois de morto! – Disse um deles.

A turma do deixa disso logo chegou para apartar. Um grupo de senhoras pediu para que as amantes abandonassem o recinto e as acompanharam até lá fora. Um zelador recolheu o urubu da mão da viúva e o tirou dali, graças a deus, porque ninguém aguentava mais aquela catinga. E a esposa traída do falecido mulherengo, em estado de choque, permaneceu intacta.

Continuaram os intermináveis discursos de melação, babação, adjetivação. Nada substantivo.

- … Jamais esqueceremos deste mártir que acreditava na política como religião – exagerava um bigodudo na cabeceira do caixão -, um homem rigoroso, rígido, honesto, um pai de família…

Pra que ele disse isso! Despertou a ira da viúva. Ela partiu pra cima do defunto, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

13 – A viúva partiu pra cima do defunto e este nem teve tempo de se defender, já estava nocauteado desde o dia anterior. Mas ela não perdeu tempo, mandou um Jab direto e três martelos que a cabeça do morto chegou a pular três vezes. As rosas brancas que escondiam o corpo do falecido voaram feito as penas que saíram do urubu enquanto a viúva dava com ele nas três amantes.

- Segura essa mulher aí! – Gritou a mesma voz que avisou a falsa chegada de Carioca para despistar Eurídice.

- Segura porra nenhuma – disse outra do fundo da capela -, esse bosta não valia nada! Traiu a mulher, os eleitores e seus próprios pares!

- Eh, o cara! Parzinho do vereador! Cala a boca aí o boiola! – Sacaneou um gozador que estava do lado de fora, confortando uma das amantes.

A capela já estava virando um pandemônio, com um montão de diabos querendo brigar e um inferno inteiro de capetas os atiçando, quando chegou uma tropa vestida de preto, mas isso fica pro próximo rolezinho.

 

14 – O pau tava comendo solto no velório do ex-vereador, quando chegou um bando vestido de preto. Os da oposição que estavam ali só pra fazer média, não tiveram dúvida: era uma coisa orquestrada, política é assim, até na hora da morte neguinho paga um bando de gente pra fazer número. Agora estavam inovando, vestiram todos de preto pra irem ao enterro.

Que nada, pra surpresa geral, além de roupas pretas os caras estavam mascarados. Era um bando de Black Blocs. Ninguém nunca tinha visto Black Blocs em Narcisópolis muito menos em Ricardo I, era a primeira vez, mais um sinal de progresso.

Mas como o governador do estado não foi ao enterro, nem o prefeito da cidade, sequer um policial ou um jornalista, decidiram dar às costas e voltar de onde vieram.  Receberam a maior vaia dos que estavam no velório, que a essa hora já tinham parado de brigar e acordado um pacto contra os mascarados de preto.

Os Black Blocs não quebraram nada enquanto a cara do morto estava toda arrebentada. Decidiram fechar o caixão, mas isso fica pro próximo rolezinho.

Adailton Medeiros

Sobre Adailton Medeiros

Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros. Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011. Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008, Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do acesso ao cinema brasileiro.
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Uma resposta a UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 2

  1. Roberto disse:

    Informação muito útil. Valeu.

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