UM ROLEZINHO EM NARCISÓPOLIS – RETROSPECTIVA QUENTINHA 3

A terceira semana da Facenovela: “Um rolezinho em Narcisópolis”

15 – Fecharam o caixão. Apertaram as borboletas no entorno da tampa. Os papa-defuntos já tinham estacionado o carrinho na porta da capela. Botaram o morto sobre o carrinho e partiram em direção à campa da família.

A essa altura ninguém falava mais da vida do morto e sim da avacalhação e desdém por parte dos Black Blocs. Como tem maluco pra tudo, teve gente que até ensaiou comprar uns rojões e soltá-los aleatoriamente pra botar culpa nos moleques, pra situação não passar em branco. Mas como só tinham cagões e puxa sacos ali a ideia não foi pra frente.

Instalaram as roldanas na borda da campa, botaram as cordinhas no caixão e quando este ensaiava descer se despregou e foi bater lá no fundo.

- Ô defunto pra sofrer depois de morto! – Disse o capelão que tentava dirigir a cerimônia.

- Se a vida foi só prazer, que desconforto o infeliz passa agora, se antes era só a cara quebrada, agora também é a bunda – lamentou uma velha.

O que houve depois? Maior sacanagem, mas isso fica pro próximo rolezinho.

16 – Assim como fecharam o caixão rapidinho na capela, tamparam a campa e a selaram com massa de cimento. Cagaram e andaram pra bunda quebrada do morto. Não houve reza, nem culto, nem pregação. Três homens que consolavam as amantes do falecido as levaram pra casa pra um consolo completo.

A pequena multidão foi dissipando aos poucos e só restou a viúva. Esqueceram dela assim como seu marido a esqueceu a vida inteira.

Ela abriu sua bolsa, sacou um baton, em seguida um espelhinho. Rabiscou os lábios, esfregou um no outro, se olhou no pequeno espelho e lembrou da gorda Eurídice. Abaixou o espelho, aprumou o olhar e foi em direção à casa de papelão.

Cheirou as flores de plástico, acariciou alguns porta retratos de mortos e imaginou o quanto Eurídice devia ser feliz. Quando quase pedia a Deus pra ser igual a louca, tomou um susto com um vulto que quase lhe atropelou, deu um enorme grito que quase acordou os defuntos, mas isso fica pra um outro rolezinho.

17 – Enquanto a viúva gritava desesperada aos berros com o susto causado pelo vulto, os papa-defuntos tentavam acalmá-la.

- Calma dona, não foi nada de mais. Foi apenas o carrinho que escorregou da nossa mão e quase atropelou a senhora! – disse um dos funcionários funerais.

- Nossa pensei que fosse um espírito, um fantasma ou mesmo a Eurídice – disse a viúva.

- E o que a senhora tá fazendo aí na casa dela? – indagou um outro funcionário.

- Tava justamente querendo ver a Eurídice!

- Mas com todo esse medo?

- Pra o senhor ver como é a vida… essa mulher de alguma forma mexeu comigo. Preciso vê-la.

- Pode tirando o cavalinho da chuva que ela não tá mais aqui, não.

- Não! E tá aonde?

- Tudo indica que ela foi pra inauguração de uma tal lagoa em Narcisópolis.

A viúva adentrou a casa de Eurídice, seu cercado de papelão, sentou-se no chão, baforejou um resto de charuto, fechou os olhos, mas isso fica pro próximo rolezinho.

18 – No meio daquelas baforadas no charuto e com os olhos bem fechados a viúva decidiu que não mais sairia dali.

Antes da lagoa ser inaugurada, de Bete ser pescada e de Carioca dar a primeira mijada na cratera ainda seca. Sim, porque carioca teve aquele surto todo porque quando estava mijando ouviu um grito vindo do outro lado da rua.

- Que isso o maluco, tá maluco! Não pode mijar aí não!

Foi Nelson, o abandonado, que gritou de dentro da sua casa. Carioca correu e, como todos sabemos, caiu. Começou a ver gente morta em lugar que nem gente tinha. Avião desovando bombas do céu, até que fugiu de si mesmo e foi dá com o menino macaco.

Nelson era um aposentado fofoqueiro que se metia em tudo. Tinha opinião pra tudo. Só não fazia nada. Por causa de transformar o campo de futebol em lagoa, quase saiu no tapa com seu Nilo. Mas isso fica pro próximo rolezinho.

19 – A parte da praça que viraria lagoa era um campinho de futebol. Um campinho de barro puro. Seu Nilo que organizava a pelada organizada. Sim, porque havia também a desorganizada, a dos com camisa contra os sem camisa. A do seu Nilo não, era tudo com camisa e grife de time: flamenguinho, vasquinho, palmeirinha…

Seu Nilo promovia campeonatos com as taças bancadas do próprio salário de funcionário público, as camisas também, mas os moleques tinham que pagar uns centavos pela lavagem das que usavam. Durante a semana o quintal do Nilo era tomado pelos varais com as camisas esticadas, lambidas pelo vento e aquecidas pelo sol.

Seu Nilo apitava também e era o dono da bola. Na verdade seu Nilo deve ter sido um perna de pau quando criança e agora estava compensando seu passado. Era bom pros moleques, mas se estourava à toa com os adultos. Logo quem foi dar a notícia pro dono dos times, da bola, do apito e dos troféus que não poderia mais ter futebol ali na praça, o pela saco do Nelson, mas isso fica pro próximo rolezinho.

20 – É foi Nelson quem deu a notícia ao Seu Nilo que não poderia mais usar a praça pros seus campeonatos.

- Pode ter mais pelada não. Não viu o anúncio na placa?

- Que placa? Que anúncio? – retrucou Nilo.

- Pô, tu tá cego, aquela ali – apontou Nelson para uma placa de pouco mais de trinta centímetros, pregada numa estaca que fora enfincada no chão de barro.

- Que babaquice é essa agora, o sindico de merda! – Esbravejou Nilo, já partindo pra ofensa.

- Merda é teu filho, teu pai e toda a tuas gerações, seu Office boy escroto…

Seu Nilo era funcionário do Banco do Brasil a trocentos anos, entrou lá ainda garoto, aos 14 anos, foi promovido várias vezes. Ganhou diploma de funcionário padrão. Chegou a tirar fotografia como o presidente da instituição da época, mas sofreu um acidente que o deixou impossibilitados de exercer algumas funções, mas isso fica pro próximo rolezinho.

21 – Nilo quase virou gerente. Tentaram aposentá-lo, mas ele apelou, se fizessem isso morreria: o banco e os garotos das peladas eram sua vida. Decidiram poupá-lo, mas para mantê-lo só mesmo como uma espécie de Office boy. Mas dá forma que Nelson falou foi pejorativa e o técnico, juiz, dono dos jogos de camisa e da bola não gostou.

- Olha aqui seu à toa, vagabundo da terceira idade, o problema é que você é um recalcado. Quer que eu conte a sua história aqui pra todo mundo saber?

Nelson não deu um pio. Ameaçou até contrapor, mas pensou no seu passado e botou o rabinho entre as pernas.

Seu Nilo cresceu: – nós vamos jogar nessa merda!

- Nós quem, cara pálida? Você acha que dá pra rolar bola com todos esses buracos? – Disse o Iluminado, do alto de sua sabedoria.

Seu Nilo não tinha notado ainda tal detalhe. Quando se enraivava ficava cego. Ficou puto. Mordeu os beiços. Partiu pra cima do Iluminado, mas isso fica pro próximo rolezinho.

Adailton Medeiros

Sobre Adailton Medeiros

Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros. Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011. Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008, Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do acesso ao cinema brasileiro.
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