Inovação com o Cine Literário

Escolas, Mostra e Programa de TV

Cinema e Literatura falando a mesma língua

Nanda Costa

Nanda Costa num bate-papo com o público.

Dos dias 19 a 23 de agosto, Guadalupe, bairro da zona norte carioca, foi uma espécie de “capital” do cinema e da literatura brasileira. Aconteceu no cinema Ponto Cine a Mostra Cine Literário, com exibições de filmes brasileiros baseados em obras da nossa literatura, seguidas de debates com grandes nomes desses dois segmentos da arte.

O Ponto Cine sofreu uma enorme transformação para receber nove cineastas – Nelson Pereira dos Santos, André Alves Pinto, Suzana Amaral, José Joffily, Rosane Svartman, Flávio R. Tambellini, Renato Terra, Ricardo Calil e Kátia Lund -, oito escritores, pesquisadores, jornalistas e críticos – Ziraldo, André Miranda, Daniel Caetano, Tereza Montero, Juliana Lins, Luciano Trigo, Eliane Trindade e Heloísa Buarque de Holanda -, um produtor – Antônio de Andrade -, um roteirista – Paulo Halm -, e uma atriz -Nanda Costa.

Debatedores da Mostra

 

Com um cenário construído e ambientado pelo premiado cenógrafo Derô Martín, dez filmes foram exibidos durante a semana, um pela manhã, outro à tarde. A abertura foi uma homenagem aos cinquenta anos do “Vidas Secas”. Depois seguiu-se com “Macunaíma”, “Uma professora Muito Maluquinha”, “A hora da estrela”, “Achados e perdidos”, “Desenrola”, “Malu de bicicleta”, “Uma noite em 67”, “Sonhos roubados” e o encerramento se deu com “Cidade de Deus”.

Para a realização do evento foi necessário uma equipe de cinquenta e cinco pessoas. Vinte e cinco do Ponto Cine, treze da terceirizada BLG Entretenimento, dezesseis da Samba Filmes e dois motoristas, sem contar com o intermediador dos debates, Léo Almeida, e com o apresentador, o ator  Caio Blat. Na verdade uma superprodução, porque a intenção é que a Mostra vire um programa de televisão.

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Um marco

O Ponto Cine é um cinema que faz história. Surgiu em 2006 como a primeira sala popular de cinema digital do país. Inovou também ao levar para Guadalupe grandes nomes do cinema, da TV, da música, como Caetano Veloso, e até do futebol, como Petkovic, para bate-papos com a plateia. Estratégia que o levou à maior taxa de ocupação das salas de cinema para os filmes brasileiros e a ser premiado pela Agência Nacional de Cinema como o maior exibidor de filmes brasileiros em todo o território nacional.

“Todos nós que trabalhamos no Ponto Cine nascemos e moramos aqui no “subúrbio”. Você crescer ouvindo que é “sub” “urbano” não é mole. Traduzindo, isso significa dizer que você é cidadão de segunda categoria. Tudo que a gente quer é quebrar isso, o esforço é enorme. Portanto, para ligarmos a cidade, construímos uma ligação com o País, que é maior ainda. Aqui na Mostra Cine Literário tivemos, por exemplo, Suzana Amaral, Ricardo Calil, Katia Lund, que se propuseram a vir de São Paulo por entenderem a importância desse trabalho. Se para nós que somos da produção isso já é fantástico imagine para o público”, disse Thiago Sales, coordenador de produção da Mostra e do Ponto Cine. E concluiu: “uma mostra como essa é uma oportunidade para as pessoas daqui, frequentadores do Ponto Cine, professores, estudantes e donas de casa ampliarem seu repertório”.

plateia e nanda_web copy“Falo sempre que procuramos ofertar o que há de melhor para esse público. Seja na programação, no conforto, no atendimento. A Mostra Cine Literário é um exemplo, a equipe realizadora é quase do tamanho da própria capacidade do cinema. Isso é respeito ao público e ao nosso território. Quando a gente dá dignidade para as pessoas elas nos devolvem com cidadania. Imagine isso quando virar programa de televisão? Pô, o que há de melhor do cinema e da literatura saído de Guadalupe! O Ponto Cine deixou de ser um cinema para ser também um estúdio de gravação. Neguinho aqui vai pirar”, falou Léo Barros, um dos coordenadores do Ponto Cine.

 

A importância da plateia

“O que eu fico de bobeira aqui é que está sempre lotado. Esses dias mesmo fomos convidados para um debate sobre o “Macunaíma” num local “super super” sofisticado, na zona sul, badalado à beça nos jornais, não vou falar o nome  pra não ficar chato. Eu não pude ir, a minha irmã é quem foi, não tinha meia dúzia de cabeças. Aqui, além de cheio, o público participa à beça, aí dá prazer porque o bate papo rende”, disse Antônio de Andrade, produtor, filho do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma.

Realmente a plateia é o que o Ponto Cine tem de melhor. A atuação na autoestima dos seus frenquentadores desenvolveu neles o sentimento de pertencimento. Percebe-se que há um orgulho em fazer parte do público, cada poltrona é disputada como se fosse um trono, porque ali a plateia é a grande estrela e assim é tratada, como deveria ser em todas as salas de cinema.

 

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Ponto Cine, um cinema e seu valor simbólico para a cidade

Adailton Medeiros

(Publicado no jornal Caza, nº 0)

 O universo simbólico e todos os mistérios que envolvem os feitos humanos são algo que vai além do fantástico, dadas as dimensões que imprimimos aos episódios e realizações em um determinado tempo, em uma determinada época, seja um século, uma década, um ano, um mês. A simbologia do mês de maio, por exemplo, é fascinante.

Maio é um mês altamente simbólico. É nele que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia. É em maio que se dá a abolição da escravatura no Brasil. É nele que ocorre a independência do Estado de Israel; a Revolução Cultural Chinesa; o Maio Francês de 68, que influenciou o mundo; a criação da Fração do Exército Vermelho Alemão; a aprovação do Texto da Convenção Americana Sobre Direitos Humanos. Enfim, é em maio que é inaugurada a Primeira Sala Popular de Cinema Digital do Brasil.

Com seus 73 lugares, em maio de 2006 nascia em Guadalupe, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, o Ponto Cine. Um cineminha metido a besta, pequeno no tamanho, mas enorme em suas pretensões. Não bastasse a novidade do seu sistema, o digital, queria ser reconhecido como o primeiro cinema de arte cravado no subúrbio carioca, dedicado, quase que exclusivamente, a exibição de filmes brasileiros.

Surgiu desacreditado no meio de um deserto cinematográfico, atacado por preconceitos, onde se pregava que os moradores daquela parte da cidade não tinham condições (financeiras), nem capacidade (intelectual), para assistirem a “bons” filmes. O tempo cuidou de desfazer tal equivoco e mostrou justamente o contrário. “A plateia do Ponto Cine é o que ele tem de melhor: é honesta, sincera e original, e de uma fidelidade extraordinária”, disse Diler Trindade, produtor dos filmes dos Trapalhões, formadores de gerações de cinéfilos, e de mais de dezenas de outros, dentre eles “Bonitinha mas ordinária”, que acabou de estrear com Leandra Leal no papel principal. Ou seja, palavra de quem entende do assunto.

No último maio o Ponto Cine completou sete anos, com sete prêmios em seu currículo, um deles o “Faz Diferença”, dado pelo Jornal O Globo, pelo trabalho de democratização e facilitação do acesso ao cinema brasileiro (sete, número de grande poder simbólico: sete notas musicais, sete cores do arco-íris, sete maravilhas do mundo, etc. Um acaso ou um sinal?). E com mais de uma centena de artistas, atores e diretores que estiveram lá para conversar com a plateia sobre seus filmes, no projeto Diálogos com o Cinema, dentre eles Caetano Veloso, Selton Mello, Caio Blat, Matheus Nachtergaele, Patrícia Pillar, Malu Mader, Letícia Sabatella, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Luiz Fernando Carvalho e muitos outros.

O Ponto Cine se tornou um grande local de encontro, de novidades, de discussões, um espaço que vai muito além do entretenimento. Um campo fértil que hoje faz parte do imaginário carioca. Talvez por ter nacido em maio e herdado isso na sua origem. Maio é derivado da deusa romana  Bona Dea, a Maia, Deusa da Fertilidade.

 

(Adailton Medeiros é idealizador e diretor do Ponto Cine)

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EU GANHEI UM OSCAR

A ficha já caiu, mas tem muita coisa pela frente.

Sucatas de velhas geladeiras, antes abandonadas em um depósito de uma escola junto a outros móveis enferrujados e carteiras quebradas, de repente ganham vida e redescobrem nova utilidade: abrigar livros e filmes. Redes de dormir tornaram-se repousos de livros e DVDs, não para descansarem, mas para serem lidos e assistidos pelos alunos. Até uma caixa enorme de papelão, de embalagem de televisão de quarenta e sete polegadas, foi reutilizada e ganhou nova função: virou caixa de teatro de fantoche, para manipulação de bonecos e ampliação da imaginação das crianças.

Geladeira criativa criada pelos alunos da "E.M ACRE" - FOTO: ANA GOMES

Esses são alguns dos exemplos da criatividade que existe dentro das escolas. Uma luz acesa, verde, que indica que é possível revolucionar a educação no Brasil, pois a matéria prima existe, está aí: professores e alunos. E de ótimas qualidades humanas. Os outros ingredientes são muitos, mas podem ser inseridos aos poucos, porém com sequência, escala e agilidade.

Isso é o que vem demonstrando o Cine Literário, projeto do Ponto Solidário e do Ponto Cine, que conta com o patrocínio da Vale, ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico -, Chemtech e Statoil, apoio Rede Ponto de Cultura – RJ e Programa Cultura Viva, com a parceria das 7º e 8º CREs – Coordenação Regional de Educação do Município do Rio de Janeiro -, de duas Estações Conhecimentos – Engenhão e Deodoro -, e oito Escolas Municipais – Acre, D. João VI, Getúlio Vargas, José Veríssimo, Manoel Bonfim, Maranhão, Miguel Ramalho Novo e Thomé de Souza.

Serão mais 32 escolas, dessas 26 no Rio, e Recife, Brasília e Florianópolis receberão 2, cada uma.

O Cine Literário é um projeto de Cinema e Literatura, pensado, especialmente, para as escolas públicas. Consiste na doação de midiotecas às escolas, com um acervo que conta com 100 livros e 100 DVDs, ou seja, dois exemplares de cada título de filme e cada título de livro que deram origem aos filmes, com o objetivo de difundir e formar plateia para o cinema brasileiro e estimular a leitura através do audiovisual.

Não é só isso. Para completar segue junto um catálogo com temas transversais sobre os filmes e livros, produzido pelo jornalista e crítico de cinema do Jornal O Globo, André Miranda, um aparelho Blu-ray 3D e um Televisor Full HD 3D de 47 polegadas. Mais 10 programas em DVD resultado da Mostra Cine Literário, que acontecerá no final de maio, do dia 20 a 24, no Ponto Cine, onde após as sessões acontecerão debates entre os escritores e diretores.

 

 

Difusão criativa do cinema - FOTO: Ana Gomes

Mas o que estimulou tanta criatividade nos professores e alunos para as inaugurações das suas Midiotecas? Certamente um conjunto de fatores que vão além dos acervos e dos equipamentos: as oficinas de catalogação aplicada por profissional qualificado, as oficinas de operação de equipamento, as de realização de eventos, os passeios ao Centro Técnico Audiovisual – CTAv -, ao PROJAC – Centro de Produção da Rede Globo -, à Biblioteca Nacional, ao Cinema Odeon e ao Ponto Cine, onde cada grupo apresentou e exibiu seus trabalhos na telona. As camisas, os materiais pedagógicos e os de divulgação a serem utilizados nas sessões das escolas, tudo de alta qualidade. A confiança depositada nos professores e alunos e os reflexos diretamente em suas autoestimas, e a ambição de um projeto original, autêntico, que visa ser replicado em escala.

Passamos por vários processos desde o prelo de Gutemberg e vivenciamos hoje um momento de enorme eclosão de informações auditivas e visuais, por diversos meios eletrônicos e digitais. A necessidade da educação audiovisual é um fato. O Cine Literário inicia-se com a proposta da alfabetização do olhar a partir do entretenimento.

Já havia escrito anteriormente um texto que falava sobre isso e recebi via face book uma postagem da professora Ana de Oliveira: “agora entendo qual o papel desempenhamos neste projeto tão rico, que desenvolve ações múltiplas. Conte com a equipe da E.M. Dom João VI para dar continuidade a este trabalho! Parabéns!!!”

Quem merece os “parabéns” é a professora Ana e todas as outras e outros professores, que com seus alunos deram uma amplitude bem maior ao projeto. Inclusive, provocaram lembranças afetivas – aqui eu peço desculpas e abro um parêntese: minha avó, quando era viva, costumava fazer uns porta sapatos de retalhos de tecidos, que ficavam pregados atrás da porta do banheiro, onde colocávamos, em cada bolsa, os nossos surrados, mas engraxados e bem cuidados calçados. Não é que uma escola, a Maranhão, fez-me lembrar da minha avó. Lá eles fizeram a mesma coisa, só que de plástico transparente e para botar livros, não para ficarem escondidos atrás da porta, mas bem vistos em sua midioteca. Fecho.

Para ficar melhor ainda só ganhando um Oscar… E eu ganhei a estatueta mais cobiçada pelo mundo cinematográfico, numa das inaugurações das midiotecas, venci o Geoger Clooney de barbada. Mas isso é assunto para outro texto. Estou com a autoestima lá em cima, igual aos parceiros beneficiados pelo Cine Literário.

 

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PONTO CINE: QUE NEGÓCIO É ESTE?

Com mais de 30 milhões em mídia espontânea, mais de 300 mil espectadores e cerca de 250 filmes brasileiros lançados, este cinema de 73 lugares, cravado no subúrbio carioca, chama a atenção do Brasil por combinar entretenimento, cultura e educação, ações sociais e mercado.

Diálogo com o cinema: Filme “Agamenon” – Foto: Ana Gomes

Prestes a completar sete anos, o Ponto Cine vive um dos seus melhores momentos. Depois de se firmar como a casa do cinema brasileiro – é o maior exibidor de filmes brasileiros no Brasil e, consequentemente, no mundo -, e de formar uma plateia considerável de cinéfilos para cinematografia nacional, no subúrbio carioca, conseguiu emplacar seus principais projetos estratégicos, o ProSocialCinema, Oficine-se e o Cine Literário e irá produzir um programa de televisão.

Um novo modelo

Neste modelo que propomos, o financiamento tem que visar preços mais baixos na bilheteria – o preço médio do ingresso no Brasil é um dos maiores do mundo -, e maior espaço de tela para o cinema brasileiro.

Hoje o Brasil hoje tem uma plateia considerável dentro dos padrões mundiais e com um potencial de crescimento invejável, tanto que vários atores famosos norte-americanos têm vindo lançar seus filmes aqui. Ano passado atingimos a casa dos R$ 1,6 bilhão em ingressos vendidos, um público pagante da ordem de 146,4 milhões de cinespectadores, porém só 10,62% desde montante, ou 15,5 milhões, pagaram para assistir a filmes brasileiros. Isso significa que cerca de 90% do nosso público consomem só importados, não se importando para onde o seu dinheiro vai.

O que quero dizer com isso: que o financiador, tem que ser também um investidor, tem que fazer parte do negócio como sócio, por exemplo, pois além de não termos garantias – bens particulares que cubram o montante -, ele tem que “acreditar” que o resultado vem na quantidade de ingressos baratos vendidos – por isso a qualificação como cinema popular –, e não na compensação do déficit com assentos vazios no modelo estabelecido de cinemas com ingressos caros

Os projetos

O ProSocialCinemaPromoção Social de Cinema -, que se subdivide em três subprojetos, o CinemaEscola, o CinemaParaTodos e o Diálogos Com o Cinema, na verdade deu origem ao Ponto Cine.

Projeto ProSocialCinema – Foto: Ana Gomes

Se por um lado chama a atenção os resultados culturais alcançados nas ações voltadas para a difusão do cinema brasileiro, formação de plateia e alfabetização do olhar, com desdobramentos sociais e na educação, diretos; por outro, sua eficiência e competência em lidar com o mercado impressionam especialistas, devido à consolidação de uma carteira diversificada de investidores: Petrobras, ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico -, RioFilme, Vale, Chemtech, Statoil, Secretaria Municipal de Educação e Minc e as Secretarias Estadual e Municipal, com suas Leis de Incentivo – Rouanet, ICMS e ISS. E de criação de produtos.O Cinema é consequência desse projeto, que subsidia cerca de 16,5 mil cinespectadores durante o ano, entre estudantes, professores e pessoas das comunidades do entorno, cerca de 20% da plateia do cinema. Seu diferencial está no aspecto inclusivo, ou seja, os estudantes, por exemplo, assistem aos filmes junto com cinéfilos que pagam por seus ingressos na bilheteria. Não existem as chamadas “sessões especiais” para eles. O que buscamos é a interação vertical da sociedade, tendo o cinema como ambiente de convivência, sem discriminação. Isso vem dando certo e se comprovando, no dia a dia, que é possível.

Ator e Diretor “Selton Mello” em debate no Diálogos com o cinema: Filme “Feliz Natal”

O Diálogos Com o Cinema vem se deslocando, naturalmente, tendendo a deixar de ser um subprojeto para se tornar um Programa. Tido como o maior sucesso do cinema, quinzenalmente traz um Diretor, um ator ou um produtor para debater com a plateia sobre um filme, geralmente inédito, após sua exibição, como acontecerá agora, dia 23, onde o ator José de Abreu estará presente para esse bate-papo, logo após a exibição do filme “Meu pé de Laranja Lima”.

Tenho sido convidado para dar palestras em Faculdades e Universidades e para participar de debates sobre Economia Criativa. São muito comuns as perguntas em relação ao sucesso do Ponto Cine e se temos intenção em expandir o projeto. Quanto ao sucesso, digo sempre que é resultado de um conjunto de fatores, que se inicia num ideal surgido ainda quando criança, passando pela persistência e se consolidando no aprendizado com os fracassos. Quanto à replicagem do modelo, depende de combinações que ultrapassam nossos esforços, como linha de financiamento, onde além de juros baixos, o foco seja o cinespectador e o cinema brasileiro.

Gravação dos curtas realizados pelos alunos do Projeto “Oficine-se de paz” -Foto: Ana Gomes

O Oficine-se, que teve inicio em 2008 em trinta e três cidades do interior do Rio de Janeiro, chegou ano passado à Escola Municipal Tasso da Silveira – que ficou conhecida internacionalmente, por causa do atentado que sofreu há dois anos, em Realengo -, e incorporou a palavra paz à marca, passando a Oficine-se de Paz.

Lá, sessenta estudantes participaram de oficinas sobre toda a cadeia produtiva cinematográfica, desde a produção, passando pela distribuição à exibição, onde conviveram no segundo semestre com os premiados diretores do “5 x favela, agora por nós mesmos”; com o diretor e roteirista Rafael Dragaud, vencedor do Grammy Latino pela direção do DVD com especial da Globo “Ivete, Gil e Caetano”; com o premiado teledramaturgo da rede Globo, Euclydes Marinho – “As Cariocas”, “O Brado Retumbante” e “As Brasileiras”-, e conosco. Com a gente aprenderam técnicas de divulgação e exibição, foco principal do projeto.

Como resultado, a garotada realizou sete curtas-metragens, montou um Núcleo de Exibição e a Escola ganhou uma sala de cinema com tela polifônica, som 5.1, cortinas termoacústicas e projetor de alta definição. Está tudo pronto, só esperando para ser inaugurada.

Visitação dos alunos do projeto “Cine Literário” ao CTAV – Foto: Ana Gomes

Agora estamos inaugurando as primeiras midiotecas do Cine Literário, um projeto iniciado em 2004, numa Feira de Livros no SESI, em Duque de Caxias, que vem se aprimorando ao longo desses anos.

O Cine Literário atua em duas frentes: uma Mostra de filmes brasileiros baseados em livros da literatura brasileira, seguida de debates com seus respectivos diretores e escritores dos livros que os originaram; e doação de midiotecas a Escolas Públicas, com um acervo com 100 livros, 50 títulos duplicados, e 100 DVDs, 50 títulos de filmes, também duplicados, adaptados dos livros.

Junto com os acervos as escolas recebem uma TV Full HD, 3D, 47”, um Blu-Ray 3D, e 10 catálogos contendo informações sobre os filmes e livros, e participa de oficinas de catalogação, operação de equipamento e produção de exibição e debate. Um projeto simples e inovador, que tem ganhado alta repercussão no meio acadêmico e cultural.

As primeiras midiotecas serão inauguradas em 10 escolas da rede pública, de 19 a 30 de abril. Em seguida serão mais 32 a receberem os acervos e equipamentos, dentre elas duas escolas de Recife, duas de Brasília e duas de Florianópolis, como pilotos para a expansão do projeto.

Programa de Televisão

Quando imaginávamos que estava tudo redondo, que a embalagem estava pronta, era só fechar e dar o laço, surge a ideia de transformar os debates num programa de televisão.

Ator “Caio Blat” debatendo com a platéia do Ponto Cine.

Por indicação do diretor e roteirista Rafael Dragaud, fizemos um contato com a produtora Samba Filmes e deu samba. Fechamos uma parceria e vamos realizar dez episódios, com os dez debates entre os escritores e cineastas. E, para fechar com chave de ouro, fizemos um convite ao ator Caio Blat para ser o apresentador do programa.

Blat, que já tem uma história de anos com o Ponto Cine, topou de imediato: “tô dentro, esse projeto é muito bonito e muito importante, muito bom podermos realizar isso juntos”, disse o ator que acabou de atuar nas filmagens de “Alemão”, filme sobre a tomada do Complexo na Penha, por policiais.

 

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NAS TELAS DA CIDADE

 

Por Adailton Medeiros

Publicado em O Globo, dia 13/11/2009 – Opinião – pág. 07

Aproveitando o lançamento do projeto “Cinema da Cidade”, por parte do governo federal, e sabendo que a nova gestão municipal quer tornar a Cidade do Rio num grande Pólo Audiovisual, segue uma sugestão para a fomentação e ampliação de platéia para o cinema brasileiro.

Li e reli várias vezes o livro O Banqueiro dos Pobres (de Muhammad Yunus, Nobel da Paz 2006). Resumidamente, é a história de um banco que se desenvolveu, fornecendo as ferramentas de auto-assistência que permitiram a 12 milhões de cidadãos de Bangladesh (10% da população do país), saírem da pobreza.

O que mais é exaltado na experiência de Yunus é a honestidade do pobre, sua moral e ética. Ele nos chama a atenção, a todo o momento, para o baixo índice de inadimplência entre os contemplados com os micro-créditos concedidos por seu banco.

O nosso caso aqui é cinema e a proposta não é desfocar; muito pelo contrário, é tentar utilizar (ou aproximar ao máximo) a experiência da fidelidade da clientela do Banco do Yunus na formação de platéia para o cinema brasileiro. Como? – “Emprestando” ingressos ao público mais pobre.

Como sabemos da honestidade, moral e ética dessa fatia da população, o risco do reembolso é quase zero. E, o melhor, ele pagaria assistindo a filmes brasileiros. Além da sua fidelidade para a construção de uma nova platéia e consolidação do nosso cinema, viriam outros benefícios.

Esses empréstimos seriam feitos com a criação de “Moedas Sociais”. Uma Conta de Luz, quitada, poderia dar direito a uma entrada para se assistir a um filme brasileiro. Assim como uma Conta de Água e uma de Telefone.

Se por um lado incentivariam as pessoas a assistirem a filmes nacionais, por outro, estimulariam cidadãos a pagarem seus impostos em dia, ou, em muitos casos, a regularizarem sua situação junto a órgãos e empresas públicos e privados.

Entre 1999 e 2000 acompanhei, informalmente, diversas ações da Light para instalações de medidores em comunidades carentes. O objetivo dessas ações não era acabar com os “gatos” (desvio de energia) ou multar os moradores (até porque a maioria não tinha endereço reconhecido pelo poder público), mas sim, levantar a quantidade de energia consumida para, a posteriori, ser rateada entre os valores cobrados às residências regulares da cidade. Ou seja, por ineficiência do estado, outros cidadãos eram penalizados e pagavam, também, por aquela conta.

No nosso caso, a “Moeda Social” tem dupla motivação: incorporar à cidadania (direitos e deveres) na cultura das pessoas premiando-as, com isso, com acesso ao cinema; e formar, aumentar e consolidar plateia para o cinema brasileiro.

E quem pagaria essa conta? – Nós, a sociedade, com o dinheiro dos nossos impostos; porém, sem metermos mais a mão no bolso e sem reinventar nada, utilizando somente os mecanismos que já existem, ou seja, as Leis de Incentivos Fiscais, em especial a do ICMS, que, infelizmente, ainda não contempla este tipo de incentivo: o direto no cinespectador – o fim, que alimenta toda a cadeia produtiva.

Resumindo: Moeda Social seria qualquer conta de Água, Luz e Telefones, quitadas em dia. Seus valores corresponderiam a um ingresso para assistir a um filme brasileiro. Esses ingressos seriam financiados por empresas patrocinadoras, através das leis de Incentivo Fiscais Existentes. Os beneficiários diretos com o financiamento “pagariam seus empréstimos” com a ida aos cinemas para assistirem a filmes nacionais. O “benefício” concorreria também para a diminuição da inadimplência e incentivo a legalizações de instalações clandestinas. O dinheiro arrecadado pelos exibidores com os ingressos subsidiados fomentaria a cadeia produtiva cinematográfica (exibição, distribuição e produção).

Se um pequeno grupo de 13 mil residências, de cada estado da federação, que paga conta de água, luz e telefone, as “trocassem” por ingressos de cinema para filmes brasileiros, e se só lançássemos 12 filmes, por ano, cada um deles teria um público potencial de mais de 1 milhão. O que equivale a dizer que se fossem 24 filmes, cada um teria um público proporcional de 500 mil; 48 filmes, 250 mil; 56 filmes, 125 mil; e assim sucessivamente.

Com esse “pacto” entre o poder público, empresas e sociedade a Moeda Social seria uma iniciativa de vanguarda, tudo a ver com o Rio, uma cidade que costuma sair na frente e lançar moda. Isso pode parecer ficção, coisa comum no cinema, mas um dia acaba virando realidade.

adailtonmedeiros@pontocine.com.br

 

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