CAETANO É BOM, MAS TASSO É ÓTIMO.

Adailton Medeiros e Caetano Veloso

 Por ( Adailton Medeiros )

Nestes últimos dias, vivemos momentos de euforia e de tensão. Não poderia ser diferente, tivemos a presença de um ilustre visitante chamado Caetano Veloso. Veio para o Diálogos com o Cinema. Veio rever seu povo, o de Guadalupe. Veio porque era um convite do Ponto Cine e ele “tinha um compromisso com esse cinema aqui”, conforme confessou para a plateia e a Folha de São Paulo replicou para o Brasil, no mesmo dia em que o Globo publicava: “Caetano é Guadalupe”.

Que responsabilidade! Vínhamos de uma sequência pesada: Eriberto Leão, Heitor D’Aliancourt e Pedro Bial. “Jorge Mautner, o filho do Holocausto” era um prenúncio, Caetano aparece no filme e Bial, durante o debate, reforçou a sua vinda à plateia, que estava com cara de “será que é verdade mesmo?”.

Caetano veio, pareceu-nos que gostou do que viu e nós do que vimos e ouvimos. Foi como um furacão no bairro. Bom para nós tietes, tenso para nós produtores. Não deu dois dias, era a vez de Emílio Domingos e “A batalha do passinho”. Mais de cento e vinte moleques, em sua grande maioria, pela primeira vez no cinema e, o melhor, para se reconhecerem na tela. Estávamos de volta à realidade, a nossa: exibição de coisa nova para uma nova plateia, um público em potencial para o cinema brasileiro.

Não basta só falar sobre funk, tem que dançar. Dançamos após o debate munidos de equipamentos em frente ao foyer. Era batalha em vários pontos do hall do Guadalupe Shopping. E quanto mais câmeras apontadas, mais passos desafiadores. Todos querendo ficar famosos e nós entendendo que queriam e que querem ser reconhecidos, que querem pertencer, sendo sujeitos de cada oração de suas próprias histórias.

Adailton Medeiros com os garotos na apresentação do filme " A batalha do passinho"

À frente do cinema estava a geleia geral, pena que Caetano não viu. Sofisticação e folclore lado a lado, juntos e misturados. E acabou que Ana, a nossa assistente e fotógrafa, virou rainha do passinho por uma noite. Os príncipes permitiram e talento a ela não falta.

Mas o Ponto Cine transcende. Impossível realizar e reter tudo num só lugar. Assim como Caetano, Petkovic, um dia após a sua despedida do futebol, também parou Guadalupe com sua vinda ao Ponto Cine. Pode parecer maluquice, mas um é músico e o outro, atleta e o Ponto Cine cinema. Assim como provocamos uma interação vertical da sociedade na plateia, mostramos que isso é reflexo da diversificação do que apresentamos a ela. E levamos isso, essa filosofia, a outros lugares. É o que está acontecendo na Escola Tassio da Silveira, em Realengo, onde estamos implementando o projeto Oficine-se de Paz.

Uma nova escola resurgiu de uma tragédia e com ela a possibilidade de um novo modelo de escola pública. A nossa colaboração é com o Cinema, que Cacá Diegues liricamente diz ser a mais bela invenção do século XX e eu, como exibidor, com uma visão mais simplista e reduzida, reestrita à tela, matéria dos meus princípios, costumo arriscar que ela, a tela, é o maior espaço de contação de mentiras que possam existir, mentiras que nos levam a refletir sobre grandes verdades.

Adailton Medeiros com os pais na E.M Tasso da Silveira

Depois de um longo período de seleção, promovemos a primeira reunião com as mães, pais e responsáveis dos alunos que estão participando do Oficine-se de Paz, projeto que conta com o financiamento, através da lei Municipal de Incentivo à Cultura, do ONS – Operador nacional do Sistema Elétrico -, que tanto ouvimos falar por conta da preocupação com o pico de consumo de energia elétrica no último capítulo da novela Avenida Brasil, e da secretaria Minicipal de Educação.

Um show! não faltou ninguém. Envolvimento e comprometimento das famílias, nota 10.

No meio do papo, na mesma descontração de um Diálogos com o Cinema, eu disse para que ninguém se preocupasse se, lá na frente, seus filhos começassem a apontar detalhes da vida que não costumavam dar importância, porque a convivência com o cinema provoca isso na gente. Chamei a atenção de que eles, os pais e responsáveis, notariam profundas mudanças em seus filhos… Até que uma mãe se pronunciou: “- Já começou, com a minha filha já começou. Primeiro que eu nunca vi ela ficar tão feliz como ficou quando recebeu a carta que tinha sido aprovada para participar do projeto. Ela dava altos pulos e gritos. Mesmo eu vendo aquilo tudo falei pra ela que seria difícil pra ela participar, ela vinha tirando nota vermelha em inglês e eu não queria que ela piorasse. Ela jurou pra mim que melhoraria as notas, esse projeto era muito importante pra ela… Ontem ela me entregou a última prova que fez, tirou 9,8. Já começou, já valeu!”

Ganhamos o dia. Foi lindo. E me arrisco a dizer que o dia do Caetano  foi um barato, mas  o dia da Tasso foi o máximo. E sei que o cidadão tropicália, o mais baiano de Guadalupe que existe, entende este sentimento.

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Diálogos com Strzoda

Adailton Medeiros

Sexta-feira, 28/09, tomei um café com uma amiga, no seu novo escritório, após ter dado vários bolos, furado uma cacetada de reuniões e enchido a sua caixa postal de intermináveis desculpas. Ainda bem que ela foi paciente e tolerante comigo, porque do nosso encontro surgiu um grande projeto.

A amiga é a editora Michelle Strzoda, que, depois de passar pela Record e pela Tinta Negra, acaba de inaugurar a sua própria editora, a Babilônia Cultura Editorial, instalada num histórico prédio no Largo do Machado, tombado como patrimônio público.

Foto: Ana Gomes

O projeto não poderia ser outro se não um livro. Um livro-cinema que dialoga com a cidade e seus personagens, já com lançamento previsto para o ano que vem.

A ideia já matutava na minha cabeça fazia um tempo: registrar em livro a importância do Programa “Diálogos com o Cinema”, que acontece quinzenalmente no Ponto Cine. Nele, um filme, geralmente inédito, é exibido e, em seguida, rola um debate entre seus diretores, atores e produtores diretamente com a plateia. Eu faço o papel de mediador.

O “Diálogos com o Cinema” existe desde a abertura do Ponto Cine. O primeiro, de cara, foi com Zelito Viana, Ferreira Gullar e Vera de Paula. O filme “A necessidade da Arte” era uma anunciação ao que veio.

Como imaginar que em Guadalupe havia gente afim dessas coisas? Era uma viagem pensar que as figuras mais representativas do Cinema Brasileiro pudessem vir ao subúrbio carioca, de quinze em quinze dias, bater cartão num cineminha de setenta e três lugares. Mas vinham e transformaram o Ponto Cine no maior exibidor de filmes brasileiros. Não vou contar detalhes porque vai está no livro.

A princípio trazer esses artistas era uma forma de “batizar” o Ponto Cine, de dar credibilidade ao nosso cinema, de mostrar ao povo de Guadalupe e da região que o Ponto Cine era um cinema de verdade, mesmo sendo feito por gente daqui mesmo. Ou seja, era um basta no folclórico ditado “santo de casa não faz milagre”.

Eu acreditava que aqueles nomes de peso estavam nos legitimando. Com o tempo percebi que havia ali uma grande troca: eles nos emprestavam sua fama e seu prestígio e nós credenciávamos seus filmes, abríamos espaço à cinematografia brasileira, éramos um passaporte entre a prateleira e a estrangeira tela do nosso país. O Ponto Cine tornou-se uma janela no fim do túnel. Um túnel sem começo.

Mais tarde percebi que estávamos provocando uma mobilidade inversa na cidade e no meio cinematográfico. Sempre tivemos que nos deslocar em direção à Zona Sul para participar de eventos reflexivos sobre arte, e, geralmente, éramos poucos e passivos. Com o “Diálogos com o Cinema”, Maomé veio à montanha, invertemos a mão. Passamos a ser maioria e sujeitos protagonistas na construção de uma nova plateia.

A plateia do Ponto Cine é o que há de mais importante no que conquistamos nesses seis anos. Aliás, plateia deveria ser sempre o que há de mais importante em todos os cinemas, deveria ser tratada como protagonista e não como coadjuvante, ou mero figurante. Afinal, é ela que sustenta o mercado.

Nesta permanente troca, entendi que o “Diálogos com o Cinema” é mais que um debate sobre filmes, é um diálogo permanente com a cidade, com sua gente e com o seu imaginário. Nele o filme não suporta o retangular limite da tela, transcende, invade as pessoas e as convida para uma infinidade de possibilidades. Ao mesmo tempo, mostra novas tonalidades a seus fazedores, os provando que a criação continua, agora não só mais deles. Criador e criatura se fundem no palco para dar luz a um novo objeto provocado pelos questionamentos da plateia.

O papo com Michelle levou quase duas horas. Depois de ouvir isso e muitas outras coisas sobre o Programa e a ideia de torná-lo livro, Sztrzoda, da forma mais natural possível, me diz “eu topo”. E continua: “quero incluir no meu catálogo de lançamento para o próximo ano”.

Mas editor é bicho esperto, pensa rápido, junto com a novidade do livro Michelle sacou da manga uma cartada triunfal: a de que o projeto não poderia acontecer sem o acompanhamento de um DVD contendo um filme, com parte dos principais programas e seus personagens. Sacação de mestre.

Mas como sou suburbano metido a besta, não poderia ficar por baixo, afinal de que valeu toda a minha experiência em caçar biquinho de lacre com visgo de jaca, passar cerol direto dando linha na pipa e brincar de pera, uva, maçã ou salada mista para dar beijo nas meninas? Delirei: já que é para fazer grande, vamos começar a pensar na pré-estreia. E nesta corremos o risco de fazer a primeira pré-estreia de um livro no Brasil. Coisa de cinema.

 

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DO CHOQUE ESTÉTICO ÀS MEDALHAS

Nos últimos meses venho me dedicando ao projeto Cine Literário como se fosse um achado – e olhe que ele teve início em 2004. Desde o seu lançamento ele vem sofrendo várias arrumações, aparos de arestas, lapidações, até que no ano passado achávamos – eu e a equipe do Ponto Cine – que ele havia ganhado o formato perfeito. Finalmente o Cine Literário passou a ser compreendido como um projeto com duas vertentes.

A primeira como uma Mostra de Filmes Brasileiros baseados em Livros da Literatura Brasileira, onde as exibições aconteceriam seguidas de debates com os respectivos diretores dos filmes e escritores dos livros que os originaram. Cada um falando do seu processo criativo, circunstâncias históricas, políticas, sociais e geográficas que os influenciaram; e suas técnicas para adequar a sua criação ao suporte adotado, ou seja, um o livro; outro, o filme.

A segunda, com distribuição de Midiotecas às Escolas Públicas, onde nelas seguiriam um acervo com cinquenta títulos de livros e cinquenta filmes em DVD construídos a partir dos livros, todos duplicados (cem e cem). Um catálogo contendo informações sobre os livros e filmes. Uma TV de alta definição de 47” e um Blue-Ray Player. E dez programas de auditório filmados e editados. Ou seja, aqueles debates com escritores e diretores falando dos seus processos criativos. E aí nos deparamos com mais uma surpresa, o projeto não estava tão redondo ainda.

Lembramos que durante os debates constantemente havia perguntas, tanto para os escritores quanto para os diretores, que os deixavam de saias justas. Ou seja, cansamos de registrar respostas dadas por eles do tipo: “quando eu escrevi não pensei nisso que você está falando”, ou “o que você enxergou eu nunca vi no meu filme, pra mim é uma novidade”.

Encontro dos alunos e escolas participantes do projeto

Encontro dos alunos e escolas participantes do projeto

Percebemos que tínhamos que dar voz e imagem a mais um inventor neste processo, a plateia – leitores e cinéfilos, ou aspirantes a esses dois segmentos. Desta forma os programas ficariam completos e estimularia ainda mais os professores e estudantes a realizarem debates em suas escolas após as leituras e exibições promovidas por eles. E, por outro lado, desmistificaríamos as figuras dos escritores e diretores: alunos e professores perceberiam que eles são pessoas comuns, que assim como qualquer mortal são capazes de fazer coisas inconscientemente, mesmo dentro de algo tão pensado, como escrever um livro ou dirigir um filme.

Aprimorado mais uma vez, projeto arredondado, agora era embalar e vender. O que foi feito. Mas aí entra a Vale, a Fundação Vale, nossa primeira investidora nesta nova edição do projeto, e nos faz uma provocação: executar o Cine Literário nas suas Estações Conhecimento de Deodoro e do Engenhão, em Engenho de Dentro, para um público de atletas, ou melhor, futuros atletas. Meninos e meninas em idade escolar que vêm superando as adversidades de suas vidas pobres e de poucas oportunidades. Em curtas palavras, o desafio era juntar cultura e esporte.

De doer o fígado. Depois de tudo pronto, mais essa. O que se há de fazer! Partimos para cima e para a nossa surpresa o quanto vimos aprendendo. Que troca! Atleta tem disciplina, é focado, obstinado por superação, quer vencer, mas de forma justa, honesta. O superar-se é uma medida encontrada sempre no outro. Por isso que é importante vencer o outro quando este está na sua melhor forma. E às vezes o outro é si mesmo, é o tempo da sua melhor prova, é o seu próprio recorde. Que fantástico.

Aqueles meninos e meninas do Estação Conhecimento só querem saber de medalhar – termo que nos fascinou, que engenhosidade em transformar em ação aquilo que é mais substantivo para eles: a medalha -, e nós ali, um corpo estranho. “Medalhar”, “Corpo estranho…” é neste momento que a lampadazinha acendeu de novo. A liga dos nossos ingredientes estava aí. O Corpo Estranho não somos nós e sim a Literatura e o Cinema Brasileiro. Nós somos apenas os indutores desses corpos estranhos que estão provocando um choque estético nesses meninos e meninas, que pouco ou nenhum contato tiveram com estes dois segmentos da arte brasileira.

Alunos na oficina de catalogação 8ª CRE

Como o Cine Literário é um projeto de estímulo à leitura através do cinema e do cinema através da leitura. E como aqueles meninos e meninas são obstinados, cada dia mais querem livros e filmes. Chegamos à conclusão que devemos medalhá-los, também, por isso – outro achado e um grande link com o esporte.

Quem receberá as medalhas – ouro, prata e bronze -, na verdade, serão suas escolas. Não porque estes garotos estão competindo entre si como quem leu mais obras que o outro ou quem assistiu a mais filmes que o amigo, mas porque eles são verdadeiramente vencedores em todos os aspectos. Estão superando a média anual de leitura por brasileiro e estão assistindo a mais títulos de filmes brasileiros que a maioria dos seus compatriotas.

Suas escolas, em breve, tornar-se-ão exemplos, não como instituições que encerram em si o conceito de Educação, mas como Instituições agregadoras e abertas, conectadas em rede, capazes de associar todos os conjuntos de informações, conhecimentos e práticas internas e externas.

Ah, e da parte do Cine Literário, quando uma escola estiver com seu quadro de medalhas virtuais cheio não significa o fim, apenas o encerramento de um ciclo. Neste momento ela mudará de faixa, da branca para a laranja, por exemplo, como os vencedores nas artes marciais, e esta simbologia estará lá no site do projeto para todo mundo ver. Mais ai já é outro papo.

Hoje o Cine Literário conta, também, com os patrocínios do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico -, e Chemtech. O projeto acontece no Rio de Janeiro, mas em breve seguirá para Recife, Brasília e Florianópolis. Ainda faltam captar algumas cotas. Estamos na cara e na coragem, no risco e na crença. Assim como aqueles meninos e meninas, seremos vitoriosos.

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O CIRCO INVADIU GERAL

Adailton Medeiros

Respeitável público! Senhoras e Senhores, Crianças de todas as cores, credos e granas: bem-vindos ao circo!

– Informo aos cinéfilos, cinespectadores e simpatizantes que este espaço continua sendo do cinema, mas, por motivo de força maior, de momento oportuno e de necessidade básica humana, falaremos de Circo, do 10 Festival Internacional de Circo.

A cidade acaba de ser palco da Rio+20, um grande circo – com todo respeito ao circo -, entorno da questão ambiental que nos deixou meio com caras de palhaços – com todo respeito aos palhaços. Muitos malabaristas e nenhum salto arriscado. Praticamente o mesmo do mesmo: capitalizar cada vez mais o que a natureza nos dá de graça. Tudo em nome da Economia Verde, que aliás, após o evento, sabe-se mais sobre o que não é do que é economia verde, porque pelo que assistimos nas idas e vindas dos trapézios houve mais retrancas  que propostas.

Enfim, os Chefes de Estados não nos causaram nenhum espanto, não despertaram expectativas e nem provocaram nenhuma interjeição, nenhum urrinha sequer.

Como a gente sabe que o planeta, por mais perverso que sejamos, nunca vai acabar, ele continua. O que acabará é a vida existente nele, e aí estamos incluídos todos nós seres vivos. O jeito é deixarmos o modismo de lado e lançarmos novos olhares sobre velhos termos, como a velha οικονομία – Economia, que já traz o “eco” na sua composição. Vamos cuidar da casa, como a origem grega da palavra nos diz, e ela não é só verde. E é aqui que dou uma virada neste artigo.

Paralelamente ao Grande Encontro Mundial do Meio Ambiente acontecia o 10 Festival Internacional de Circo, que transformou a cidade no grande picadeiro central do mundo. Centenas de artistas internacionais de periferia – foram mais de vinte países envolvidos – vieram se apresentar para o público das comunidades pacificadas. Todos, artistas e público, gente que vive na corda bamba, mas que se arriscam. Uns para sobreviver ao salto mortal mais desafiador possível, outros para invadir o imaginário mundo do riso, da alegria e da fantasia a que têm direito e que a cidade nunca lhes proporcionou. Dois mundos estreitados onde os humanos se completam, simplesmente porque são humanos e compartilham suas humanidades.

O Festival de Circo nos deixará vários legados, que talvez a Rio+20 não nos deixe. A começar por como se fazer acordos, confiar um no outro e mostrar resultados.

Exemplo é o espetáculo montado em quinze dias, com vinte artistas de países distintos, dirigidos pelo coreógrafo Rob Tannion, que resultou no CRECE SUR, um dos espetáculos mais concorridos.

Ali jovens confiavam suas integridades físicas a outros jovens, responsáveis por apará-los após saltos de mais de três metros, com piruetas. Outros se permitiam o toque, o contato físico para mostrar o belo na leveza de um esforço estupendo, para apresentar uma escultura humana suspensa e pendular. Um rapaz desconhecido, agarrado a uma corda somente por sua arcada dentária, sustentava outra moça anônima de ponta-cabeça, pela panturrilha, num gesto aparentemente simples com uma de suas pernas dobrada. Ele muito forte, ela bastante mirradinha, mas os dois com coragens de mesmo tamanho.

Outro legado que Festival de Circo nos deixa é o de que cada um é e deve ser protagonista da sua própria história e que a soma de protagonistas eleva a qualidade das histórias reunidas e estas nos servem de fontes inspiradoras de transformações.

E se cabe mais um exemplo de legado é o de sustentabilidade. Não há sustentabilidade sem o ser humano, portanto tudo tem que passar por nós primeiramente, por cada história, por cada individualidade, pelos direitos primários à vida e não à compra. O Festival Internacional de Circo propôs de forma simples, natural e lúdica a confiança mutua um nos outros. Propôs e mostrou na prática que todos podem ter acesso e dar acesso. Mostrou que mais importe que discutir como vamos ensacar o ar e como vamos precificá-lo é respirá-lo de graça, como desde sempre foi instituído pela natureza. Respirá-lo e sorrir.

O circo mais uma vez prova que é realmente mágico. Com artistas de periferia e com público de periferia tornou-se centro do mundo e confundiu as bolas: o que é centro? O que é periferia? O que é mundo?

E o palhaço por trás da bola vermelha no seu nariz, do alto picadeiro, interroga a meninada:

- você gosta da mamãe? Você gosta do papai? Você gosta do amiguinho?

E a garotada responde um estridente e retumbante “sim”.

Isso nos soa como um grande sinal que temos muitas chances de manter a vida viva no planeta. Viva o Circo. Viva o 10 Festival Internacional de Circo da Cidade do Rio de Janeiro.

 

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RITO DE PASSAGEM

Seis anos, onze projetos, mais de 150 mil espectadores e 20 milhões em mídia espontânea. Ponto Cine, que negócio este?

Adailton Medeiros

Maio é mês de aniversário do Ponto Cine, completamos seis anos. Estamos naquela fase de sair do aprendizado básico para ingressar no ensino fundamental do mercado cinematográfico. A nossa matrícula está garantida, afinal, por conta das nossas próprias dificuldades, tivemos que criar a nossa própria escola.

Lógico que essa primeira etapa foi intuitiva, empírica, desmensurada, porém criativa e honesta.

O motivo que me levou a escrever esse texto foi uma troca de e-mails que tive com a Eliane Costa, que deixara a gerência de patrocínio da Petrobras para iniciar seu doutorado e tornar-se de vez uma cientista da cultura.

Eliane é uma pessoa que tem todos os requisitos para um dia tornar-se Ministra da Cultura deste país. Tem um Raio-X da Cultura-Brasil levantado ao longo desses últimos anos, quando esteve à frente do setor da maior patrocinadora deste seguimento. Tem informações técnicas, políticas e sociais e, acima de tudo, tem o faro e o emocional aguçados.

Bom, e em função disso, nessa troca de mensagem, onde ela anunciava sua aposentadoria após trinta e sete anos de empresa, num e-mail aberto aos parceiros, amigos e colegas de trabalho, ela citou, espontaneamente, dezessete projetos de ponta que lhe vieram à cabeça no momento em que escrevia seu texto. E na ordem de lembrança o Ponto Cine foi o décimo a ser citado. Motivo de orgulho, para nós, é claro – o porquê já evidenciei no parágrafo acima apontando as qualidades e pré requesitos de Eliane. Mas também é motivo de reflexão, especialmente neste momento em que vivenciamos o nosso rito de passagem do básico para o fundamental.

A Petrobras foi a primeira empresa a investir no Ponto Cine. No entanto não foi nada fácil, levei dois anos para chegar à gerente de patrocínio e usei de todos os artifícios possíveis: de abordagens inconvenientes em festas, lançamentos de filmes, abertura de festivais, passado por “duras” em cerimônias institucionais às tentativas de sensibilização informais no samba do Escravos da Mauá. O importante é que consegui chegar a ela, isso dá outro artigo e deixo para depois.

Eliane foi a primeira pessoa a acreditar no nosso trabalho, foi a primeira a investir nele de fato. Seu risco era grande: associar a marca da maior empresa brasileira a um projeto invisível que silenciosamente nascia no subúrbio carioca, contra tudo e contra todos. E ela se expôs.

Hoje, após seis anos, lendo seu e-mail, percebo que saímos da invisibilidade para nos tornarmos exemplo de sucesso e de quebra de paradigma. Saímos do limitado espaço geográfico do subúrbio para ocupar o universo imaginário dos jovens empreendedores Brasil adentro e dos antigos militantes de um corrente permanente que sonha com uma maior ocupação dos filmes brasileiros nas telas dos nossos cinemas.

O Ponto Cine, hoje, é o cinema que mais exibe filmes brasileiros em todo o território nacional, em números de dias e de títulos. Melhor, é o cinema que mais exibe filmes brasileiros em todo o mundo, pois apesar de o Brasil projetar pouco os seus filmes nas suas telas, não há país lá fora que os exiba mais que nós. Construímos uma plateia fiel e temos a melhor média de ocupação de sala para os filmes brasileiros.

Com uma capacidade restrita a 73 lugares por sessão ultrapassamos as marcas dos 150 mil cinespectadores e 20 milhões de mídia espontânea.

Um cinema além-tela

Mudamos a cara de um bairro deslocando Guadalupe das páginas policiais para os cadernos de cultura dos grandes jornais, revistas e TVs. Interferimos no seu meio ambiente transformando a paisagem do entorno do cinema, atraindo sinalização, melhoria no asfalto, poda de árvores, varredura de ruas e, consequentemente, valorização dos imóveis na localidade, pois além dos investimentos públicos seus moradores, estimulados, passaram a fazer investimentos privados como embolso, acabamento e pinturas.

Percebemos que o Ponto Cine é uma alavanca. É bom para o setor público, é bom para o setor privado, é bom para tudo, até para cinema. Antes se falava que era absurdo construir um cinema aqui, a justificativa era que o povo além de não ter poder aquisitivo não tinha poder intelectual. Provamos o contrário e o resultado é que nos últimos três anos dezessete salas foram inauguradas no entorno do Ponto Cine: seis em Sulacap, seis em Irajá e, recentemente, mais cinco no próprio bairro de Guadalupe. Às vezes a realidade parece mais ficção que a própria ficção: somos também um cinema bandeirante, na linha de frente abrimos picadas para a chegada dos cinemões.

Bem, estamos bem, firmes e fortes, e bem melhor que no início. O Ponto Cine está consolidado. Como inovador abriga onze projetos, dentre eles a Rede Limpa de Exibição, o Oficine-se de Paz e o Cine Literário, projetos que já despertam interesses internacionais, por lincarem de forma eficiente a cultura e a educação, enxergando nos estudantes o potencial de plateia futura, consumidores em potencial de cultura, formados a partir de ações imediatas.

Depois da Petrobras surgiram grandes parceiros com a mesma importância como o ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico -, que além de investir fortemente no Ponto Cine aqui está levando a sua marca para outros dois Estados, Recife – PE e Florianópolis – SC, e para o Distrito Federal, Brasília, abraçando três projetos conosco.

A Vale, que através de suas Estações Conhecimento, no Rio – Engenhão e Deodoro -, provocou um desafio à criatividade pontocinesca gerando a possibilidade de integração entre o esporte, a literatura e o cinema, que vem dando ótimos resultados.

Estamos assinando com a Chemtech e acabamos de assinar um contrato com a Secretaria Municipal de Educação para a execução do Oficine-se de Paz, um projeto piloto na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, onde além de oficinas para os alunos vamos montar uma central de exibição. E estamos com três propostas para abrir salas de cinema, mas isso ainda é segredo de estado.

Maio é mês de aniversário. Cantamos já o “parabéns pra você”, mas não apagamos as velinhas para as chamas continuarem acesas e se multiplicarem por muitos e muitos anos de sucesso. Viva o Ponto Cine. E à Eliane, só tenho a agradecer pela confiança, pela parceria e por inspirar este artigo.

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